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Freio de arrumação

É algo que me parecia estranho, como que um sinal trocado, e que me acompanha há alguns anos: as formas de paquera em ambientes tidos como mais progressistas e outros mais conservadores.

Por exemplo, naquela passeata a favor de Aécio Neves entre o Largo da Batata e o shopping Iguatemi, em 2014, que acabou chamada de Revolução do Cashmere, um grupo de mulheres minhas conhecidas, então partidárias do tucano, comentou que, se soubessem que haveria tanto “homem gato”, teriam caprichado mais no visual.

Já nas marchas recentes em defesa da Educação depois dos cortes anunciados, o clima era outro. Com maior presença de ativistas feministas, qualquer flerte que não fosse sutilíssimo poderia acabar em descompostura.

Algo semelhante acontece no carnaval. Os blocos do Centro, Santa Cecília, Consolação e Vila Madalena têm colombinas em fio-dental, meia arrastão e até mamilos de fora. Mas ai do pierrô que, encantado, deixar escapar um olhar pidão.

Nos blocos da 23 de Maio e grandes trios-elétricos digamos, mais profissionais, com abadás, música axé e até sertanejo universitário, a paquera rola solta. Aliás nem sei se podemos chamar de paquera. É pega-pega generalizado.

Em São Paulo há dois ótimos bares com nome de santo depois de um nome comum: Mercearia – São Roque e São Pedro.

A primeira, na rua Amauri, Jardim Europa, reúne gente do tal mercado e endinheirados de modo geral, que chegam da acadêmica de ginástica em carros esporte ou SUVs blindados, motocicletas de super-herói. Bebe-se uísque em litro próprio e grandes coquetéis coloridos. E historicamente o que se vê é que só não arranja uma alegriazinha quem não quiser.

A segunda, São Pedro, lá na Vila Madalena, conta com livraria, reúne intelectuais, artistas e gente da academia de Platão que chegam a pé ou de bicicleta e bebem cerveja em vasilhame de 600 ml no clássico copo americano da Nadir Figueiredo. Mas consta que dá pouco namoro. Muito Brecht e pouco beijo.

Intrigado com o aparente sinal trocado penso e converso a respeito com amigos e amigas para entender o fenômeno. Sou um velhinho do século 20 e reconheço que tenho um longo caminho para me libertar do machismo absorvido no contexto em que vivi. E me esforço para tanto.

A conclusão provisória é que trata-se de um freio de arrumação social. As mulheres e os homens feministas, mais frequentes em ambientes progressistas,  estão de acordo que não podemos continuar vivendo numa sociedade onde os homens sintam-se à vontade para invadir a individualidade feminina com cantadas e sequer o tal olhar pidão. Contato físico sem consentimento expresso, então, nem pensar.

São vários os relatos de mulheres estonteantemente belas que passaram a vida sofrendo com a dádiva da Natureza. Sei de uma que viveu apavorada em receber um prestador de serviço sozinha em casa ou mesmo pegar um taxi, porque se constrangia com os olhares. Outra chegou a mudar de país em busca de algo minimamente civilizado. Ou aquelas que tentavam se ocultar em roupas maiores do que as dos seus números. E ainda outra que, na contramão da maioria que busca preservar ao máximo a juventude, encontrou a paz na idade mais avançada porque não teve sossego enquanto foi jovem e túrgida.

É justo o freio feminista. E a um amigo que discordou por ver exagero na freada perguntei como ele se sentiria se tivesse que encontrar diariamente em seu caminho meia-dúzia de gays desses gigantescos e musculosos que ficassem assobiando ou o encarando e fazendo comentários quando ele passasse. Mudou de ideia.

 
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