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Pra não dizer que não falei das flores ou obrigado, Greta Thunberg

O paulistano, antes de tudo, tosse.

Escrevo aos que, como eu, creem no fenômeno dos chamados rios voadores, isto é, aquela imensidão de água que evapora na Amazônia e se esparrama a leste dos Andes, permitindo que, ao contrário das demais localidades na mesma latitude, não sejamos um deserto como do Atacama, na América Latina, o Kalahari, na África ou o Grande Arenoso, na Austrália.

A quem duvida dos rios voadores por qualquer motivo peço que pare por aqui. Não precisa ler. E se o motivo for defender o governo federal, lembro que membros da Esplanada reconhecem que tais rios existem.

Voltando ao fenômeno, sem o qual será impossível viver na cidade de São Paulo, se é exagerado dizer que viramos um deserto, mesmo considerando as temperaturas extremas e a baixa umidade do ar próprias dos desertos, também é verdade que há muito já não somos a Terra da Garoa – que no sentido original definia a névoa que encobria a cidade, diferente do que hoje define chuva criadeira, também rara. Agora é seca ou toró.

Na opinião de alguns cientistas, mais recentemente o que os rios voadores trouxeram foi não a névoa ou a garoa, mas uma nuvem preta de fuligem das queimadas do Dia do Fogo na Amazônia, cerrado e Pantanal. São Paulo anoiteceu tenebrosamente na tarde do 19 de agosto.

De novo, até os relatórios do governo federal reconhecem que a fumaça veio de lá. Sim, disfarçaram dizendo que vinha da Bolívia, cujas matas também ardiam, mas a escala era só uma das curvas que todo rio faz – e com os aéreos não é diferente.

Bom, isto significa que, invés de água, os rios voadores trouxeram mais fumaça, sujeira e ar seco para São Paulo. E meu palpite é que a resposta da Natureza foi imediata: aproximadamente um mês depois da noite suja, entre quarta e quinta-feira da semana passada, houve a maior florada de ipês-brancos que eu já vi, bem como das jabuticabeiras. E não por acaso, o 11 de setembro foi o dia mais seco do ano, colocando a cidade em estado de alerta. Triste ironia: o Parque do Ibirapuera deslumbrante e as autoridades recomendando à população evitar atividades ao ar livre.

Mas o que a secura tem a ver com as flores? Como já escrevi aqui, ainda para o Esquina do Estadão, sob o chamado estresse-hídrico as plantas acham que vão morrer e concentram toda sua energia na criação de descendentes – e os órgãos reprodutores delas são as flores. Mais exatamente o gineceu é pipuca e o androceu bigolin.

Enfim, a explosão dos ipês, jabuticabeiras, primaveras, guapuruvus em São Paulo é um lindo espetáculo que deve ser visto como tragédia anunciada.

Se alguém ainda acha que podemos tocar fogo ou desmatar a Amazônia em função de desenvolvimento econômico, é preciso lembrar que economia = finanças + sociedade + meio-ambiente. Só nesse tripé ela para de pé. Ou por outra, estragando lá, ficaremos sem cá: sem casa, comida ou camisa limpa.

Depois de amanhã há a Sexta pelo Futuro (Fridays for Future), também chamada de greve pelo clima. Mobilização global convocada por jovens do mundo inteiro liderados pela sueca Greta Thunberg. Em São Paulo o encontro será no MASP às 16h00. Vá de bermuda, chapéu, leve água e use protetor solar. Estamos no inverno mas ontem os termômetros marcaram 35 graus.

 
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