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João do sofá, João do Coco e a Democracia

O PSDB nasceu “longe das benesses do poder e perto do pulsar das ruas”. É um fato, tão claro e evidente como o caminho inverso que trilhou nos trinta anos desde então. Quer dizer, apegou-se às benesses do poder e se afastou das ruas.

É a genética do MDB, que tem mais ou menos a mesma história, só que mais vigorosa, surgindo como uma frente ampla e corajosa de oposição à ditadura militar e, portanto, completamente afastada do poder totalitário. Força esta que ainda se verifica, inclusive pela própria pluralidade, ainda que não signifique que continue a serviço de bons propósitos – muito até pelo contrário.

Já o PT é filho de intelectuais e sindicalistas e afilhado de religiosos progressistas. Cresceu forte, denso, e só perdeu viço quando engordou demais os movimentos de base ligados à legenda. Se a obesidade levou ao sedentarismo ou vice-versa, não vem ao caso. Importa que vale para UNE, CUT, MST etc. O folego, porém, foi preservado e, sob intensa malhação, é capaz que recupere a forma de outrora.

São estes o três maiores e mais importantes partidos desde a redemocratização. Têm muitos vícios e virtudes, igual a tudo na vida. E, apesar dos pesares, desde o fim da ditadura militar, governado pelos três o Brasil melhorou muito.

De uns anos pra cá a voga foi a tal nova política, charla braba, mas que pegou e tem um baluarte chamado Partido Novo.

Mais que legítimo, é louvável que um milionário tenha se disposto a criar um partido político em torno da ideologia que lhe serve. Pessoalmente gosto do João Dionísio Amoedo e admiro sua disposição em entrar na arena de peito aberto, ao contrário de tantos outros milionários que fazer política nos bastidores, na melhor das hipóteses bancando eleições ou lobby dentro da lei.

Mas é importante lembrar que o primeiro poder sempre esteve com os milionários, donde pode se dizer que o Partido Novo, ao contrário do MDB, do PT e do PSDB, nasce exatamente dentro do poder, só que do outro lado do balcão – que é o lado mais forte.

Se há alguém capaz de duvidar da força do poder econômico, note a cronologia das reformas: teto de gastos, trabalhista, Previdência, tributária, administrativa /Pacto Federativo. Fica claro que a ordem está exatamente invertida, como se determinada por alguém sentado exatamente do outro lado do balcão, lendo de cabeça para baixo.

Voltando ao Partido Novo, repito que bato palmas para o João Dionísio por ter rompido com a lógica acima. Mas tenho advertido nas redes e aqui pretendo ser ainda mais claro: parem, simplesmente parem de dizer que não usam dinheiro público e não pode Fundo Partidário. Primeiro porque é mentira. Depois porque é perverso.

O que garantiu a precoce aposentadoria do João Dionísio, numa bela combinação cem milhões de dólares no bolso mais ou menos cinquenta anos de idade, foi ser sócio do Unibanco e ter embolsado boa parte da fortuna após a fusão com o Itaú, cujos impostos, que somavam R$ 26 bilhões, foram perdoados pela União. Se isso não é um tipo de aposentadoria com dinheiro público, não sei o que é.

Muito bem. Jovem, rico e saudabilíssimo, o maratonista Amoedo corre na orla da Zona Sul do Rio de Janeiro pela manhã e, provavelmente, antes de voltar para casa e tratar do Novo, quiçá num sofá branco de plumas de ganso e com certeza sob forte ar-condicionado, bebe uma água de coco num quiosque em Ipanema. Talvez servida por outro João, o João do Coco, que por sua vez, na prática, é dez vezes mais liberal do que seu xará na teoria.

Pergunta: como faz o cara da água de coco se quiser fazer política? Pagar para fazer o concurso do Novo, impossível. Tempo para articular correligionários, menos ainda. Disponibilidade para viajar, nem que seja até Botafogo, zero. Daí que, se João do Coco tiver talento e vocação para servir ao país, precisará de um partido com mínimos recursos para uma disputa em pé de igualdade, algo vital para a Democracia.

Então, João do sofá, por favor pare. Simplesmente pare. E diga aos seus correligionários que o populismo Zona Sul já passou da conta, tanto da mentira quanto da perversidade.

Atualização: A primeira reforma, que é a Reforma Política, ficou fora da lista. Comi bola, admito. Em que pese ela não estar no horizonte do lado mais forte do balcão, e ser constante e dolosamente misturada com a bienais reformas eleitorais pelo lado político, foi falha grossa. Não tem perdão.

Atualização 2 / ERRATA: Em 2002 o Itaú compra quase toda a Fináustria, incluindo o quinto de ações que pertenciam a Amoedo. Em 2004 ele vira VP do Unibanco, cargo que ocupa até 2005 ao ser eleito para o Conselho de Administração do mesmo banco. Em 2009, um ano após a fusão do Itaú com o Unibanco, passa a integrar o conselho do Itaú BBA, ficando até 2015. 

 
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