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Não vale por um bifinho

A chef Paola Carosella tuitou contra a pasta de plantas que despudoradamente vem sendo chamada de hambúrguer. Como de costume lá no perfil dela, rendeu perdigotos mil.

Nutro profundo respeito pelo hambúrguer e toda comida de pobre. São as grandes vitoriosas da história culinária, junto com feijoada, cassoulet, paella, vichyssoise, risotto, quibe, açorda, pasta alla norma, embutidos todos e demais variações do que aqui já está, não à toa, umas variações das outras.

Quer dizer, se não tem bife para todos, comam hambúrgueres. Não há lombo suficiente? Salsichas, linguiças. O baronato comprou os filés dos peixes, os tentáculos dos polvos, dispensou as cabeças dos camarões? Os pés, pescoço e carcaças da galinha? Façamos caldos e neles vamos cozinhar os vegetais do quintal e algum carboidrato. Delícia!

De tão gostosas e populares essas receitas conquistaram todas as classes sociais. Em muitos casos se refinaram a ponto de perder a identidade. Caso da feijoada dos anos 1980, que surge separada em cumbucas: paio, linguiça portuguesa, costela, carne seca, lombo etc. E, lá no canto, algo marginalizada, a cumbuca do fetiche: pé, rabo, orelha.

Com efeito, muita gente fazia um prato de arroz, feijão, farinha, laranja, couve, torresmo e, se lá, carne seca, e supunha estar comendo feijoada. Não estava. Mas acreditava.

Como o ser humano não reconhece limites, surgiu a feijoada light e depois a vegetariana. Feijoada vegetariana! Ninguém protestou. Irresponsavelmente deixamos passar. E o que temos hoje, com a volta da feijoada completa na mesma panela, é gente dizendo que prefere feijoada só de carne seca.

A rigor é o mesmo que chupar limão e acreditar que bebeu caipirinha. “Ah, prefiro a minha assim, sem cachaça nem gelo, e muito menos açúcar.”

Ora, precisamos chamar as coisas pelos nomes certos e reconhecer o que elas são, respeitar suas histórias. Essa onda do “hambúrguer” de planta não é propriamente novidade. Já tínhamos de porco, frango, peixe e até de soja. Nada disso é hambúrguer. Que esteja à vontade quem quiser aderir, mas tenham a bondade de criar também um nome, não só uma molécula sigilosa que supostamente repete o gosto do sangue do boi na boca.

Talvez o mundo não consiga produzir morangos para todas as pessoas. Paciência. Ou talvez quem gosta muito de morangos se disponha a plantar alguns num canteiro em casa. Oxalá! Mas não me venham dizer que bolachas ou biscoitos (uma polêmica por dia basta) recheados com sabor artificial de morango é morango, porque não é, assim como “hambúrguer” de planta não é hambúrguer.

Na impossibilidade de servir bife de contrafilé com dois dedos de altura para cada ser-humano, o hambúrguer até vale por um bifinho. Mas o Danoninho não vale, nem por bifinho, nem por morango, assim como seu primo ultra processado  de planta pode valer por outra coisa qualquer, mas por hambúrguer, não.

 
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