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Sociedade apodrecida

O sincericídio moral do ex-Procurador-Geral da República, que contou em entrevista de pré-lançamento de seu livro ter ido armado ao Supremo Tribunal Federal para assassinar um ministro e então suicidar-se rendeu nas minhas redes reações assustadoras – porém infelizmente previsíveis se olhadas com frieza.

Contou o celerado que, para honrar a reputação da filha, que teria sido vítima de fofoca de um ministro, o macho progenitor meteu uma pistola na cinta e partiu decidido. Já no café do Palácio do STF ele se vê sozinho com aquele que seria seu alvo. Destro, saca a arma e a engatilha. Porém o nervosismo paralisa o indicador direito que premeria o gatilho. Determinado, ainda tenta com a mão esquerda, que também falha. Chabu físico que evitou uma tragédia sem precedentes.

Como se não bastasse a notícia, verdadeira ou mentirosa, fui obrigado a ler não poucos nem isolados comentários lamentando a inconclusão do atentado. Sim, gente tida como equilibrada e sensata despudoradamente escrevendo que era uma pena Rodrigo Janot não ter passado fogo em Gilmar Mendes.

Um desavisado poderia suspirar: a que ponto chegamos! Só que não. Tal visão de mundo está mais entre nós do que gostaríamos de imaginar quando nos supomos civilizados.

Puxe pela memória. Quantas pessoas da sua convivência defendiam o trabalho do Esquadrão da Morte? Quantos celebram a carnificina no Carandiru? Quantos repetem, sem receio de parecer um facínora, que Direitos Humanos devem se restringir a humanos “direitos”?

Daí para a defesa dos contemporâneos “excludente de ilicitude” para agentes da Lei que matarem sob “surpresa ou violenta emoção”, ou para sentenças baseadas em processos viciados, com juiz e procuradores atuando em súcia, ou prolongadas prisões preventivas sem julgamento, ou o perdão a amigos corruptos confessos, o que temos é só um ajuste de discurso sob o mesmo caráter – ou a falta dele.

O “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, o “sabe com quem está falando?”, o “manda prender, manda soltar”, o “para os amigos, tudo, para os inimigos, a Lei” estão entre nós, completamente entre nós.

Tão triste quanto inócuo é argumentar com essa gente. Lembrar que sem Justiça e respeito ao Estado de Direito ninguém, absolutamente ninguém está seguro tem efeito igual a zero ou mesmo negativo. A hipocrisia alimenta as convicções de conveniência e eleva o tom dos falsos moralistas. Não por acaso, na minha experiência pessoal os verdugos mais implacáveis costumam ser notórios vigaristas, que se apoiam no senso comum que elege inimigos públicos para entrar de penetra nos convescotes da chamada “gente de bem” – onde costumam ser bem-recebidos na base do “inimigo do meu inimigo é meu amigo”. E assim apodrece a sociedade.

 
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