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A inteligência artificial é assunto das ciências humanas

Quando resolvi voltar à escola ou, antes, ir à escola, posto que fugira na adolescência, o curso que me interessou foi Direito. Gosto do tema, da prosa dos amigos militantes, especialmente dos criminalistas e falencistas. Então, sem medo de ser infeliz, compareci ao vestibular sem me preparar e, para surpresa geral, motivo de incredulidade de alguns amigos até hoje, passei na primeira lista do Mackenzie.

Porém, como o final do ensino médio e mesmo o básico ainda pendentes, não pude fazer a matrícula. E conversando com minha Neguinha, que organizou as inscrições e me incentivava, descobri que ela, que é advogada não militante, tendo se dedicado por muitos anos à certificação e conformidade empresarial, a hoje chamada compliance, estudara por quatro anos o código civil e, no ano de conclusão do curso, mudou o código civil. Pensei duas vezes e resolvi procurar um curso com mais estabilidade. Acabei escolhendo Filosofia, que conta uns dois mil e quinhentos anos de escritos em pleno vigor.

As passagens acima surgiram nos meus algoríntimos hoje pela manhã durante o debate Desafios e Oportunidades da Inteligência Artificial para o Direito e a Justiça na Fundação FHC.

A Mesa de craques incluía o ministro do STJ Paulo de Tarso Sanseverino, o juiz federal de Maryland – EUA Peter Messite, o professor de Direito Constitucional e Direitos Humanos da FGV e colunista da Folha Oscar Vilhena Vieira, o advogado e professor da Columbia SIPA e pesquisador do MIT especializado em tecnologia Ronaldo Lemos, com mediação do ex-juiz do TRE-SP e professor da São Francisco – USP Flavio Yarshell. Ufa.

O vídeo do debate deve estar no ar pelos canais da FFHC dentro de alguns dias e vale a pena ser visto, principalmente por conter mais perguntas do que respostas.

Meu comentário aqui ficará restrito à fala do professor Oscar Vilhena Vieira, que num gesto de grandeza fez a autocrítica da classe: pelo bom trânsito nos bastidores do poder, os militantes da advocacia conseguiram criar barreiras que retardaram os avanços das novas tecnologias sobre o setor. Mas agora não tem mais jeito, as barreiras estão desmoronando e a inteligência artificial no meio jurídico é uma realidade.

Mas o próprio professor Vieira admite que desde a academia há uma tentativa resistência. Como é próprio dos advogados, ficou claro que eles entrarão no debate sem qualquer cerimônia. Debaterão Ética como se fossem filósofos, criação e aplicação de leis como se fossem políticos ou juízes, efeitos sobre a sociedade e o emprego como se fossem sociólogos.

Obviamente tem um lado bom em tal disposição. Ninguém sensato prescindiria de ouvir o professor Oscar Vilhena Vieira e outros tantos acadêmicos ou militantes do Direito experimentados e perspicazes.

Porém devo discordar dele sobre o futuro das escolas de Direito. O próprio professor Oscar diz que, até pelo custo do curso, Direito e Administração são duas das faculdades mais procuradas, em que pese, no caso do Direito, só 14% dos bacharéis acabarem atuando profissionalmente na área, concluindo que as escolas terão que se adaptar. E enfim é chegada a hora de eu admitir que estou puxando a brasa para a minha sardinha.

Ora, se é pela formação em si ou mesmo pelo custo do curso, estudar Filosofia é mais amplo, profundo, perene e barato que Direito. E tudo indica que hoje dá mais futuro profissional. Esparramar esta noção óbvia pela sociedade é fundamental.

O Ranking Universitário da Folha publicou hoje a brusca queda do índice de procura por cursos de humanas. A demanda por cursos de Filosofia e Ciências Sociais despencou. Fatores diversos e especialmente preconceito envolvidos.

Por outro lado as gigantes de tecnologia, de biotecnologia, governos, setor financeiro e todo trabalho que envolve dados e análise procuram cada vez mais profissionais formados em humanas para pensar e esquematizar como será o amanhã – que talvez já seja hoje. Mas não é só.

Ainda do professor Oscar, juro que para encerrar: recentemente ele esteve com Francis Fukuyama, que por engano se adiantara em uma hora para uma conferência, e ambos aproveitaram para se alongar num café, no qual o filósofo e economista chicaguense admitiu, preocupado: “Hoje, sem estar afinado com análise de dados em grande volume, fico com receio de não saber mais fazer o que sempre fiz.” Fato: é um mundo novo. Todos teremos que nos adaptar.

 
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