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Impeachment

Sinto calafrios só em ouvir falar a palavra impeachment. Tenho verdadeiro horror a tudo o que ela reúne. O clima, o processo, o desgaste, o risco demasiado alto para pagar por algo que poderia custar bem menos.

Atribuo meu asco primeiro à minha devoção ao Parlamentarismo, onde essas dores de troca de governo simplesmente inexistem. Depois à experiência incomum de, sendo brasileiro e apenas recém chegado à velhice, já ter visto dois presidentes impedidos.

Para piorar, sempre aparecem uns malucos que, igual a tudo na vida, creem ser possível se acostumar a uma violência política dessas proporções. Alguma bióloga poderia combinar com uma socióloga e pesquisar se há relação com o hábito brasileiro, forçado na maioria dos casos, de impor partos via cesariana em detrimento ao processo natural.

No último impeachment recusei a ideia até quando pude. Igual a tanta gente eu reconhecia que não havia condições de governabilidade para a Presidenta e argumentava que, fosse a matriarca de qualquer família, responsável por decisões que afetam tantos, alguém falando diariamente aquela coleção de groselhas, a parentada teria arranjado uma solução de transição em favor da preservação da harmonia e do patrimônio, certamente menos traumática do que a interdição judicial. Afinal, cedo ou tarde vem Natal e é desagradável carecer do mínimo de urbanidade em família para uma ceia.

Ela poderia ter renunciado num acordo geral, talvez até com o Parlamento, amarrando tudo com uma reforma Política. Não deu. Depois poderia ter a chapa cassada no TCU, mas empurraram com a barriga e, quando enfim chegou o dia, era tarde. Seu sucessor ora assumidamente golpista já vestira a faixa e a Nação foi condenada a ver uma absolvição que ficou conhecida pelo “excesso de provas”.

Desde então a sociedade não consegue mais conversar e o clima no Natal e demais festas se tornou insuportável. Estudando as tragédias gregas na escola fui descobrir que várias das condenações que alguns, como Édipo, pagaram em vida, e enquanto resistiram ao destino espalharam tristeza e destruição, têm na raiz um golpe de Estado ancestral, do qual a fuga é impossível. A tristeza e a destruição da cidade só aumentam enquanto o condenado não se acerta com a história.

Sei que alguém pode estar pensando que falo do nosso presidente Bolsonaro, ou do ministro Moro e ainda do ex-posto-Ipiranga PaGue. Principalmente os três, caso viessem a ler esta mensagem à deriva no oceano virtual. Mas sou a favor que o governo cumpra seu turno por todos os motivos já expostos. E não quero falar de chihuahuas Hoje estou para pitbull e em boa companhia.

Prêmio Nobel de economia e colunista do NYT, Paul Krugman escreceu sobre impeachment hoje. Título: vem aí a queda de Trump. A Folha reproduziu. Arrepiei. Sei que há o processo deflagrado pelo telefonema ao presidente ucraniano e que está acelerado, sei também que ele deve perder na Câmara mas tem chance de sobreviver no Senado, e meu palpite é que se segura até a eleição, para a qual, pasmo, reconheço a chance de vitória.

Mas então vou ler o Krugman e noto que não há no artigo um escasso pingo sobre o telefonema. Zero. O argumento é todo em torno da economia americana que, em que pesem narrativas e até dados favoráveis, se encontra com um quinto dos setores em recessão – justamente os setores diretamente afetados pelas escolhas e bravatas de Donald Trump.

Arrepio maior ainda. Se um pitbull que mora na casinha branca mais temida do mundo late e o mundo reage assim, imagina o que pode acontecer com os chihuahuas que grasnam ou relincham no Palácio do Planalto.

 
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