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Admitamos: somos todos Greta

Ando impressionado com os ataques à Greta Thunberg. Dela dizem: mimada, raivosa, radical. Como se, aos dezesseis anos, todos seus críticos já fossem bem educados, amáveis e moderados.

Fato: não eram, não poderiam ser. Pior, ainda não são. Tome-se por exemplo as pessoas que formam o governo eleito no Brasil em 2018, especialmente popular entre os homens que já passaram há décadas dos dezesseis anos.

A BolsoFamília é o quê, senão mimada, raivosa, radical? E o Paulo Guedes “se não for do meu jeito, vou embora! (ia)”? E Sérgio Moro, que fez o que quis da Lei e atropelou instituições?

Mas não só eles. Dilma Rousseff, eleita e reeleita presidenta é o que, se não mimada, raivosa, radical?

Mimado, raivoso, radical também é Donald Trump, que preside a maior democracia do mundo. Ou não? E Boris Johnson é o que, meu Santo Colomba?

Se tais figuras representam e espelham a sociedade, somos todos Greta, e talvez só ela esteja certa ao passar um pito coletivo, mundial, dizendo que não estamos procedendo bem.

E vale um alô inclusive para seus críticos mais moderados. Demétrio Magnoli, por exemplo, um craque, respeitabilíssimo, que sabe pensar e comunicar, ponderou (sem trocadilho com o imponderado professor de Filosofia que também escreve para a Folha) que a vida boa de Greta só é possível graças ao crescimento econômico mundial, que no século 20 afastou uma multidão da miséria, da fome, da doença, ao mesmo tempo que moeu o meio ambiente.

Problema: ainda tem muita gente na miséria, passando fome e padecendo de males que um dia foram considerados erradicados. Quem diria que em 2019,  inclusive no primeiro mundo, haveria preocupação com gripe, sarampo, doença de Chagas, febre amarela etc.?

Problema dois: igual para o meio ambiente, as soluções para a saúde e o conforto da humanidade devem ser globais. Problema três: a solução Chinesa, estadunidense ou japonesa para trabalho e renda, ou produção e consumo desenfreados, se escalada para sete bilhões de pessoas, explodiria o planeta antes do carnaval.

Problema três: considerando a concentração de renda e a falta de perspectiva das classes médias, que trabalham a vida inteira da mão pra boca, sem segurança financeira para enfrentar a velhice, inclusive nos ricos Estado de bem-estar social europeu ou no salve-se quem puder americano, são hoje a principal causa de instabilidade política, que tem derivado na escolha de gente mimada, raivosa e radical que, esbravejando como Greta, toca os corações e estômagos dos desesperados mundo afora.

Enquanto isso o papa Francisco, melhor político em atividade no mundo, sensato, conciliador, moderado, é acusado de chefiar de uma instituição ultrapassada por uns e de ser socialista radical para outros.

Se não formos capazes de, como faz Francisco, sentar pra conversar e tentar combinar um mínimo denominador comum para continuar, seremos todos Greta. Admitamos: estamos longe da maioridade.

* Conteúdo atualizado para incluir o PM ilhéu Boris Johnson, que obviamente não poderia faltar na lista.

 
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