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Quanto tempo pode durar essa corrida?

Data vênia a beleza transmitida por todo monge, de qualquer religião ou ordem, e a importância que acredito haver em ter gente em retiro, meditando, a paz de espírito que eu mais admiro é a do chofer de praça da cidade grande.

Dia desses entrei num taxi. O chofer, um senhor simpático, ao longo da corrida me disse que contava 64 anos. Para as minhas referências, que admito serem atrapalhadas e não me permitirem dizer se uma criança está mais para oito ou cinco anos de idade, ele parecia mais velho, ao que atribuo às quase quatro décadas rodando na praça em São Paulo, ao contrário dos meus paroquianos que tiveram vida mais amena.

Era o dia em que o Supremo julgava a questão sobre o réu que fala por último num processo, notadamente se um delatado pode ser privado de alegações finais depois de citado por um delator. Creio que não, e este foi o entendimento da maioria. Mas aparentemente a sociedade não concorda e não gostou.

Não sei se por punitivismo ou sensação de impunidade histórica, fruto da transformação do direito fundamental à ampla defesa e ao contraditório em artigo de luxo, restrito a quem pode pagar por ela, o taxista estava realmente aborrecido.

Sua fala, porém, era serena, e ele conseguiu expressar o que sentia: “Se não tem Justiça para todos, que não tenha pra ninguém.” Olhei para ele como quem pergunta: tem certeza? Ao que ele admitiu que eram palavras revoltadas e que obviamente não podiam dar certo na realidade.

Se ainda parece difícil entender, o jeito é pensar como seria o mesmo critério aplicado à educação, saúde, segurança, habitação etc.

A conversa andou e a desesperança ficou ainda mais visível. Me contou que há três anos tenta em vão juntar dinheiro para viajar durante as festas, e não tinha conseguido de novo: “Já é outubro e não guardei um tostão.” Qual viagem ele planejava? Uns dias em Santos com sua senhora.

Quatorze horas por dia no trânsito de São Paulo, seis dias por semana, e não rola uma recompensa sequer de três dias em Santos. Eu já ia engasgado e ele ainda arrematou: “Meus parentes dizem que sou louco porque não pago o INSS há dois anos. R$ 200 por mês. E eu respondo: louco? E como é que alguém decide entre comer hoje e se aposentar daqui a sei lá quanto tempo?”

Resta saber quanto tempo pode durar essa corrida. E quanto vai custar.

 
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