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Vai passar

Cresce nas redes sociais a adesão aos entusiastas de passar por cima do hábito de passar roupas. Meu palpite é que o movimento é inexorável. Batata: vai passar.

O apelo dos mais entusiasmados é sociológico: pedem para que a gente desencane de usar roupas passadas ou, antes, que nos acostumemos com as amassadas.

Seja por não ver lógica em gastar tanto tempo e energia passando roupa, notadamente as íntimas, ou as de cama e de baixo, tendo a aderir ao grupo, ainda que admitindo que sempre receberei com ternura o gesto de carinho de quem quiser passar os meus lençóis direto sobre a cama, quiçá caprichando com a dica do Dorival e perfumando com alecrim. Mas eu mesmo não estou disposto a fazer isto.

Acredito que a pá de cal sobre o ferro de passar virá pela tecnologia. Primeiro dos panos, ou malhas e tecidos, que cada vez mais prescindem dele. Nos Estados Unidos as malhas saem lisas e macias da secadora, o que é atribuído à química de um lenço descartável amaciante e perfumado.

A classe média no Brasil usa roupas americanas e poderia muito bem importar ou produzir por aqui o mesmo lenço. Mas talvez a mão de obra barata e o Complexo de Sinhazinha ainda prevaleçam sobre o desenvolvimento.

A classe alta, que tudo pode, adota linho, cashmere e seda, que também não precisam de ferro. Os últimos não amassam e o primeiro é tanto mais chique quanto mais amassado.

Me lembro do meu avô Coutinho contando da república em que morava quando estudante de medicina. Todos vestiam linho branco e a passadeira usava ferro a carvão. Uma fagulha poderia por tudo a perder, até a lavagem. Sempre que vem notícia de canonização penso nessa santa mulher.

Há no Brasil um pano bom que não amassa. Meu alfaiate insiste em recomenda-lo: Tropical, da Paramount. De fato não amassa e sequer precisa de ferro. A calça mantém inclusive o vinco depois de seca e pendurada. Eu é que raramente encontro aonde ir de terno.

E o Guga Chacra, que usa terno diariamente, gosta de dobrar roupas porque aproveita o momento para ouvir podcasts, especialmente o Papo de Política de sua comadre Julia Duailibi no quarteto com Maju, Natuza e Sadi.

Mas igual a todas as outras atividades humanas de repetição, o costume de passar roupas ou pagar para que alguém o faça vai acabar com a popularização dos robôs – que já existem. São capazes de ler cada peça, passar, dobrar e separar. Então não tem jeito: vai passar.

 
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