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O que as autoridades não falam

É assustador o que os governantes atuais falam. Aqui e alhures. Gente louca sendo tratada com normalidade, encontrando eco em nichos igualmente loucos da sociedade.

Para ficar em alguns exemplos brasileiros, no final da semana passada os próceres do reacionarismo nacional se reuniram num evento onde várias autoridades palestraram. O chanceler do Brasil disse que “o fascismo é de esquerda”, que Voltaire, filósofo francês do século 18, queria “lacrar” quando contrapôs ideologia à verdade e desrespeitou a monarquia e a fé francesa, disse que a ONU não faz nada para diminuir a pobreza no mundo, que os iluministas são os ancestrais dos esquerdistas, chamou a preocupação com o caos climático de “climatismo”, emendando que a preocupação é usada para interferir na educação e na economia e ainda sugeriu que “tem mutreta”.

No mesmo encontro uma ministra achou por bem comentar que, há 24 horas reunida com jovens, ainda não vira cigarro de maconha ou uma mulher introduzindo crucifixo na vagina. Seu colega à frente da pasta da Educação, comparou o ex-presidente FHC à aids.

Longe do encontro mas igualmente celerados, o ministério da Economia pensa em incluir na reforma administrativa um dispositivo que impeça servidores públicos de terem filiação partidária e o ministro da Justiça acredita que amenizou sua portaria arbitrária que alterou a Lei de Migração e o presidente da República, perguntado sobre denúncias de tortura em presídio no Pará, respondeu que jornalistas “só perguntam besteira”. E ainda repete seu abjeto slogan de campanha “meu partido é o Brasil”.

Meu ponto é: se o que está acima é o que essas pessoas dizem em público sem qualquer pudor, o que dirão em privado?

A resposta é mais ou menos conhecida e está nos vazamentos das conversas entre os integrantes da Lava Jato pelo The Intercept, pelos áudios que o deputado Alexandre Frota passou a divulgar ou pela reportagem sobre as milícias virtuais bolsonaristas, do repórter Moura Brasil na revista Crusoé. O desprezo pela democracia é evidente em todos eles.

E o estarrecedor é ver gente tida como civilizada aceitando este cenário como se fosse normal ou minimamente aceitável sob o argumento de que doutro modo seria impossível atuar na esfera pública. Não é! Pelo amor de Deus: não é!

O nome disso é fascismo, sabemos como começa e tolo é quem supõe saber como acaba.

E quem pensa que está seguro numa sociedade assim, ou que não haverá reação oposta de igual ou maior intensidade – porque sociologia não é exatamente igual à física –, recomendo que vá a uma sala de cinema que estiver exibindo Bacurau, mas que invés de olhar para a tela, olhe para a plateia.

Bacurau é um filme para se ver de costas. O retrato fiel de Kleber Mendonça Filho sobre a violência nas periferias e sertões do Brasil, bem distante dos cinemas descolados dos centros urbanos, é recebida com aplausos e gargalhadas pelo público tido como civilizado, mas que torce a favor da barbárie para combater a barbárie.

Se na arte a história se passa no futuro, é um alerta para os centros urbanos que ainda não viram pessoalmente degolas e massacres. Mas na vida real dos sertões e periferias degolas e massacres são o presente. As crianças que vendem pano de prato no semáforo estão acostumadas a ver cadáveres crivados de bala no dia-a-dia. O sangue no cotidiano delas pode ou deve ser banal. Mas obviamente nenhuma delas acha graça nisto.

 
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