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O Brasil no microondas

Foi um dezessete de outubro impressionante no PSL17. Mesmo para quem se preparou para o impacto deste governo, o desastre impressionou a ponto de gente sensata supor que era tudo combinado para abafar algo ainda pior – igual a esmola excessiva que faz o pobre desconfiar, tamanha balbúrdia pareceu incrível até para os mais experimentados e pessimistas. Nunca se viu algo parecido.

O rolo é atribuído à disputa intestina pelo controle da legenda. O combustível é, pela ordem, o caixa de aproximadamente R$ 700 milhões que o partido terá no ano que vem, somando fundos partidário e eleitoral, e o poder de organizar as candidaturas nas principais cidades em 2020 – desde a escolha dos nomes até a distribuição do tempo de televisão – sempre fundamentais para as eleições gerais dois anos depois.

Jair Bolsonaro, presidente da República, quer o controle do partido. Mas Luciano Bivar, dono do PSL – que rompeu com o próprio filho e o movimento Livres para absorver o bolsonarismo – não quer abrir mão.

A centelha que deflagrou a explosão veio na terça-feira 15. A Câmara votava uma MP administrativa de interesse do Planalto e o delegado Valdir, líder do PSL e aliado de Bivar, orientou obstrução. De colher, ainda deu um tapinha nas costas do correligionário major Vitor Hugo, líder do governo.

O movimento que pode dificultar o dia-a-dia do governo é tido como reação à busca e apreensão da Polícia Federal nos endereços de Bivar por conta das denúncias de candidaturas laranjas que envolvem o ministro do Turismo, protegido de Bolsonaro.

Engraçado: no painel daquela votação PSL e PT estavam juntos em obstrução. E naquele mesmo dia a deputada Dra. Manato, do PSL, fazia a união definitiva. Subiu à tribuna e mandou “Só para avivar a memória da esquerda. Provados candidatos laranjas em 2018: PSL 15%, PT, PP 12%…” E concluiu “Não tem ninguém santo aqui dentro.”

No dia 16 o ponto de não retorno na relação BB (Bolsonaro e Bivar) já era dado. Aliados de um e outro começaram movimentos para tirar a liderança do delegado Valdir. O plano, pra lá de imprudente e não só avalizado como liderado por Jair Bolsonaro, era botar Eduardo Bolsonaro em seu lugar.

O que se seguiu foi uma lambança bizarra. Presidente da República gravado e vazado, reunião de bancada idem, ameaças e gente falando em não se reunir para evitar confrontos físicos – que não aconteceram.

Os termos usados estão pra lá do que nos acostumamos a chamar de fogo no quengaral ou cabaré. Até nos lupanares mais rústicos é incomum que as pessoas se tratem assim. Del. Valdir sobre Bolsonaro: vou implodir esse vagabundo. Joice Hasselmann ainda sobre Bolsonaro: inteligência emocional menos vinte. Eduardo sobre Joice: nota de três (meme).

E ainda: o áudio vazado com Bolsonaro mascateando a candidatura do filho tem um ponto gravíssimo. Ele explica ao deputado ou deputada que gravava as funções do líder do partido: verba, cargos etc. Quer dizer, das duas, uma: ou o presidente estava sugerindo compra de apoio ou o PSL não se preocupou em transmitir o básico do regimento parlamentar a seus membros.

Considerando que o partido botou R$ 800 mil num convescote reacionário internacional de Eduardo Bolsonaro, justificando com razão que o dinheiro do fundo partidário é para isso, resta perguntar por que não fizeram antes o básico.

O resultado foi péssimo para o governo. Derrota fragorosa para Bolsonaro. O vexame foi tão grande que, prudentemente, o presidente retirou a indicação do filho à embaixada nos Estados Unidos. E agora procura outra legenda qualquer para não ficar na chuva.

Tudo isso não só era previsível como foi aqui. Essa turma toda se aproximou da vida pública inspirada num deputado de baixíssimo nível, que junto com seus filhos se dedicou a defender milicianos, bananeiros e a ralé da agricultura e da mineração, praticar rachadinha com funcionários e lacrar nas redes sociais. Hoje não só estão no centro do poder como para lá levaram os maus modos que têm na vida pessoal. É de amargar ver o Brasil nesse microondas.

 
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