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De leão a rato em 24h

O goldenshower não foi pior que o vídeo do leão postado na segunda-feira pelo presidente da República, comparando o STF, ONU, órgãos de imprensa, movimentos sociais e partidos políticos – inclusive o próprio – a hienas famintas.

Na adaptação tosca de um vídeo padrão Discovery Chanel para uma fábula paranoica que enxerga inimizade e selvageria em qualquer lugar, Jair Bolsonaro seria um leão acuado por hienas a fim de devora-lo, mas acaba salvo por uma leoa.

Duas considerações ligeiras: hienas são coprófagas, isto é, tem o hábito de comer fezes. É no mínimo estranho que alguém, por mais afeito ao tema que seja, se compare a fezes. E outra: para um misógino que atribui o sexo da filha caçula a uma “fraquejada”, ser salvo por uma leoa só pode ter sido desatenção.

Alguns analistas chamaram o vídeo de Rei Leão. Vá lá. A bolsofamília tem mesmo a volúpia autocrata da ralé e se comporta como se reinasse, e o protagonista da cena é um leão, rei da selva. Mas as semelhanças com o desenho animado passam em outro canal: Hamlet.

Produtor do Rei Leão, Don Hahn admitiu, depois de diversos artigos e críticas, que preteriu a biologia a favor de Shakespeare para aproximar a narrativa à obra do inglês.

Como é sabido, na peça Hamlet é o príncipe da Dinamarca e busca vingar a morte e a traição de Cláudio, o irmão fratricida de seu pai.

Aí começam as semelhanças. Queiroz, amigo-irmão de Bolsonaro, além de depositar cheques na conta da primeira-dama, continua bastante descuidado em relação à primeira-família. E na segunda-feira seguinte aos vazamento de áudios de Queiroz complicando a primeira-família, surge o vídeo no twitter do Presidente.

Dez entre dez observadores atribuíram a publicação, horas depois apagada, a Cartucho, ou filho 02, que sabidamente acessa as redes do pai. Juridicamente é um detalhe, porque se está no perfil oficial do Presidente, foi o próprio que postou. Mas à analogia dramatúrgica serve bem. Cartucho, o leãozinho atrapalhado.

Numa comparação mais distante surgem o Horácio de Hamlet ou o Rafiki do Rei Leão, respectivamente o diplomata ou o elo entre o fantasma do rei Hamlet e os outros bichos. Na corte bolsonariana não sei se seria Dudu 03, Bannonzinho, o ChanCelerado ou tudo junto e misturado.

A tragicomédia acabou mal. Nunca se viu, em parte alguma, um chefe de poder fazer ataque tão baixo e despudorado a outro poder. Custou caro. A corte não gostou e o decano Celso de Mello reagiu publicamente. Na coxia dizem que Dias Toffoli passou pano.

O leão terminou o dia como um gato acuado, ou melhor, um rato. Em Riad, perguntado sobre a declaração de quem veste toga, guinchou e correu. Mas ao ver jornalistas brasileiras obrigadas a cobrir o corpo com o véu imposto à mulheres pela ditadura saudita, fez piadas misóginas. Depois foi ter com o príncipe Bin Salman, mandante do assassinato e esquartejamento de um jornalista, com quem Bolsonaro diz ter afinidade. Se o presente oficial foi o livro do torturador coronel Ustra, é o início de uma longa amizade.

 
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