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Tirem as crianças da sala

Dizia minha mãe: olha o palavreado! E repetia. E repetia. E repetia. Tanto quanto “Fez xixi? Escovou os dentes?” Pois é. Boca suja era proibido nos sentidos figurado e literal. Assim, atribuo a ela falar pouco palavrão desde muito cedo.

Lá na casa dos Bolsonaro evidentemente a regra era outra. O pai diz ao filho 03: papel de filho da puta que você está fazendo comigo; tens moral para falar do Renan? Ao que o escrivão responde: não me compare ao merda do seu filho.

Entre os demais a toada é parecida. “Não entro no carro com esse vagabundo” entre 02 e 01 está no mesmo do “passa o purê, por favor?”. Sobre OakLavo é melhor calar.

Sem dúvida o zeitgeist está a favor deles, que não à toa são a primeira-família do Brasil. Pelaí a turma também vai se tratando assim. No metrô, dia desses, um casal jovem trocara juras de amor: PQP, mano, te amo! Eu também te amo, mano, caralho! (Eram menina e menina.)

O bode é ver que da vida privada o palavrão escalou sem pudor para a coisa pública. Talkei, talkei, são nossos representantes, refletem a sociedade, mas será impossível dar uma maneirada?

O vídeo do presidente da República estrilando na madrugada saudita foi uma barbaridade, e até agora sua excelência não se dignou a pedir desculpas aos brasileiros e à TV Globo. Pior, só a quantidade de gente aplaudindo nas redes.

É curioso. Bolsonaro agrada sua base pela estética. Engasgadas, as pessoas gostariam de ter seus momentos de fúria e por prudência se seguram, mas não se vexam em gozar com o perdigoto alheio. Resta saber quem já apagou incêndio com perdigotos – noves fora os mocinhos do cinema americano.

Perdigotos são, essencialmente, lenha na fogueira. E quem brinca com fogo, igual ao Jair Bolsonaro de Xiricica, faz xixi na cama.

Não sei o que é pior, se as pessoas se sentirem representadas por palavrões ou ignorarem que, sob a nuvem de perdigotos, quem os profere vai fazendo tudo diferente do prometido. Combate à corrupção? Vejam as interferências na Polícia Federal, receita Federal, COAF, caso do 01. Criminalidade? Eles são a bancada das milícias. Reformas? A da Previdência estourou nas classes média e baixa e manteve os privilégios das elites.

Diga, freguesa, se tem cabimento o bate-boca entre os deputados 03 e Alexandre Frota na CPI das Fakenews. Palavrão pra valer, não teve. E antes tivesse. A coisa está de corar o Jesse Valadão.

O copo meio-cheio é o seguinte: 03 não será embaixador em Washington, o que aumenta nossas chances de só passar vergonha doméstica. Mas está puxado. Por ora, tirem as crianças da sala.

 
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