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Noção nova sobre o capital

Dizia-se em São Paulo que o Antenor Mayrink Veiga, símbolo de riqueza do século 20, usava um taxi para se deslocar no Rio de Janeiro. Pode parecer estranho para os millennials, mas o chique na época era ter carro próprio com motorista, e andar de taxi era quase que um atestado de pobreza em alguns círculos.
Antenor era dono de uma fortuna construída desde muito tempo e aumentada durante a Guerra do Paraguai, quando a Casa Mayrink Veiga passou a comercializar com as Forças Armadas e só parou mais de cem anos depois. Tinham dinheiro para manter um avião disponível só para buscar guloseimas, como água Perrier, durante safáris na África.
Porém Antenor era discreto e, assim, usava taxi para não chamar atenção. Com um detalhe: o carro era dele e o chofer, seu empregado.
Hoje em dia, ainda que os super-ricos do terceiro mundo continuem fazendo a mesma coisa com aviões, helicópteros, barcos e casas de veraneio, com a melhora da frota na praça e a facilidade em encontrar taxi ou similares, mesmo com dinheiro sobrando não faria sentido bancar o Antenor.
Aliás, já não faz sentido sequer ter carro próprio, noves fora peças de colecionador e o costume, que outro carioca ilustre definiu como “a força que fala mais alto do que a Natureza”.
O divertido é ver que o cenário na praça evolui bem desde a chegada dos aplicativos de compartilhamento. Sim, ainda tem muita gente suando e sofrendo os efeitos da crise macroeconômica e com os taxistas não é diferente. Mas dentro da microeconomia da praça tem gente se adaptando e garantindo trabalho.
Dia desses minha Neguinha pegou um taxi de luxo que custa a mesma coisa que qualquer outro. Carro coreano, mas de luxo, preto, chofer de gravata preta, ar ligado, bancos em couro, água gelada, drops, tomada para carregar celular, wi-fi. Usa faixa e corredor de ônibus e atende quase que exclusivamente pelo WhatsApp.
Alguém pode dizer com razão que não tem grande novidade nisso. Mas calma. A curiosidade é a forma de trabalho. Dessa marca e modelo de carro são 25 taxis em SP, cujos motoristas se reconheceram e se organizaram num grupo, compartilhando a freguesia sempre que um deles é solicitado e não pode atender. Dos 25, dez são blindados e mais disputados pela turma da paranoia.
Palpite: em breve esse e outros grupos vão evoluir para uma cooperativa onde os carros não serão mais propriedade individual. Se fizessem isso desde já, poderiam ser até 75 motoristas, trabalhar 24/7, faturar mais e diluir o capital e os custos de manutenção.
Se eu estiver certo, será divertido ver como mudaram, dos chiquérrimos Mayrink Veiga para cá, as noções de capital e elegância – esta sempre atrelada à inteligência.
(Por falta de retrato do discreto Antenor, segue a dos menos discretos mas elegantíssimos Carmem e Tony Mayrink Veiga.)

 

 
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