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A canoa vai virar. Quando?

Minha inveja mais antiga é caiçara. Ainda menino eu admirava os garotos filhos de pescadores que sabem se equilibrar em canoas pequenas, verdadeiras cascas de amendoim, e lamentava não conseguir sequer embarcar numa lancha média sem risco de acabar na água.

O equivalente urbano desse sentimento vai em relação às crianças de hoje em dia. Os filhos dos ricos estão sempre cheios de atividades, mas todas cercadas por muros e grades. Entre umas e outras, são entretidos pelo tablete ou TV instalado nos encostos de cabeça dos SUVs. Aprendem muitas coisas, mas não têm noção do que é uma calçada. Soltos a duas ou três quadras de casa, estarão perdidos.

Já os filhos dos pobres, com sorte, passam um período do dia na escola. Mas o resto do dia é na rua, trabalhando para ajudar no orçamento de casa. Vivem a cidade com todos seus achaques e deleites.

Não vou cair na armadilha de tentar dizer qual modelo é preferível porque tal resposta não existe. Aliás, sequer podem ser chamados de modelo. Ambos são ruins e só podem ficar bons se misturados.

A distância entre os que vivem nas calçadas e os que desconhecem o que é calçada talvez nunca tenha sido tão grande. Os números divulgados ontem pelo Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo são o retrato de uma calamidade social.

Entre os ricos o índice de mortalidade infantil é igual ao nórdico: 1,1 por mil nascidos. Entre os pobres a taxa é semelhante a de países africanos menos desenvolvidos, chegando perto de 25 bebês mortos antes de completar um ano de vida a cada mil nascidos.

E não se pode dizer que os sobreviventes têm mais sorte. A calamidade permanece de mamando a caducando.

Trecho sobre idade média ao morrer: “Se na média da cidade a vida acaba aos 68,7 anos, nos bairros com mais pretos e pobres, essa idade cai para 60,4 anos. Destaque para Grajaú (58,6), Anhanguera (58,8) e Jardim Ângela (58,9).

Nos 15 distritos com menos pretos e pardos, a média de idade ao morrer é de 77,8 anos. Moema, com 80,5, Jardim Paulista (79,8) e Consolação (79,4) é onde a expectativa de vida é maior.

Assim estamos divididos. Voltando à imagem da canoa, apesar de não saber usar, pude aprender o óbvio: não existe qualquer possibilidade dela navegar, ou sequer de não virar, com o peso tão mal distribuído. Então é claro que vai virar. Resta saber quando.

Ah! Quando vira, não importa se você está sentado tomando sol e cerveja ou de pé remando e suando: vai todo mundo pra dentro d’água, o que para quem está cansado e suado pode até ser um alívio.

 

 

 
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