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Faça o teste

Faça o teste, freguesa. Vale a pena – literalmente, pena mesmo, no sentido de penitência. É simples, porém dolorido. Porém insisto: vale a pena. E é urgente.

Escolha um bar ou restaurante em rua movimentada de sua cidade. Pode ser qualquer um, desde que disponha mesas nas calçadas. Então peça uma refeição. Não precisa caprichar com ostras que voaram de um lugar distante para chegarem frescas. Nem regar com espumante. Um PF de arroz, feijão, bife e salada regado de água basta.

Comece. Talvez você se surpreenderá com o incomodo de ser interrompido entre uma e outra garfada por gente desabrigada e faminta pedindo ou implorando por algo parecido. Ou pelo menos o que sobrar. É indigesto, bem sei, mas é o que é e acontece todo santo dia, ainda que muitos de nós, protegidos pelos muros imaginários, não percebamos.

Ocorre que o muro só é imaginário na nossa cabeça, que impede a visão do outro lado, para o qual o muro é real, mas paradoxalmente não impede a visão. Muito pelo contrário.

Por melhor que seja seu coração e maior que seja seu cofrinho, é impossível resolver o problema ali da calçada. Você pode até, para aliviar o momento, autorizar almoços em quentinhas pata todos os pedintes que lhe abordarem. Provavelmente seu estômago fará uma digestão melhor. Mas hora do jantar a fome estará de volta em cada um dos demais estômagos.

Numa cidade como São Paulo não é difícil que a conta do almoço para um casal chegue em R$ 145. E, segundo dados do IBGE divulgados ontem, esta é a soma que 13,5 milhões de brasileiros têm para passar o mês. Recorde na série histórica iniciada em 2012, o grupo é classificado como pertencente à “extrema pobreza”. O nome mais adequado é “miseráveis”.

A linha que separa os brasileiros é clara e longa como a que separa o Solimões do Rio Negro: 74,96% deles são pretos ou pardos, 59,99% não tem instrução fundamental, 25% dos jovens não estuda nem trabalha.

Entre os que escapam da linha de miséria mas seguem abaixo da linha de pobreza, ou que vivem com até R$ 413 reais por mês, equivalente a meio salário mínimo, o contingente salta para 50% da população ou cerca de 104 milhões de pessoas, entre as quais aproximadamente ¾ são pretas ou pardas.

De novo: tentar consertar individualmente é inútil. No máximo, desembrulha o estômago. E o pacote de revolução constitucional – ou embrulho inconstitucional – apresentado pelo ministro da Economia PaGue, para quem o pobre deveria aprender a poupar parte dos valores descritos acima, olhar típico de quem se sente protegido pelo muro imaginário, definitivamente não é o que vai resolver. Muito pelo contrário.

A única alternativa é nos reconhecermos como Nação e entendermos que riqueza e pobreza andam de mãos dadas. A primeira deve ser distribuída democraticamente de modo que ninguém fique abaixo de uma linha de dignidade. E a segunda deve ser entendida como é: a coisa mais cara que existe, cujo preço estamos todos pagando.

 
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