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Bolívia e a maldição dos confetes

Tem gente boa divergindo sobre o que houve na Bolívia. Foi golpe? Não foi? Meu palpite: contragolpe. Evo Morales desrespeitou um referendo para disputar um quarto mandato e fraudou a eleição. A rua estourou com milícias se conflagrando, atacando inclusive casas de família. As forças armadas “sugeriram” que ele se retirasse, o ex-presidente renunciou e se exilou no México.

O principal líder de oposição chama-se Luis Fernando Camacho, católico reacionário que mistura religião com política e… Bom, aqui no Brasil o tipo prescinde de descrição. Todos conhecemos bem.

É uma pena tremenda que em 2019 tenhamos um cenário desses onde quer que seja. Mas está posto. E prever o que vai dar é impossível até para quem conhece bem a Bolívia – o que não é o meu caso.

Neste momento, não há governo. Toda linha sucessória renunciou. Inclusive os membros do tribunal eleitoral, que seriam responsáveis por organizar novas eleições. E ainda assim dois foram presos, ao vivo na TV, por militares mascarados.

O curioso é que a ascensão de Evo se deu em situação muito parecida. A história é bem contada no documentário Crise é o Nosso Negócio, da cineasta Rachel Boyton, que mostra os bastidores da campanha eleitoral boliviana de 2002, quando a agência de estratégia eleitoral americana Greenberg Carville Shrum é contratada para sacudir a candidatura Goni – e vence.

Gonzalo “Goni” Sánchez de Lozada Bustamante, filho de diplomata criado em Whashington, que fala castelhano com sotaque americano, já havia presidido a Bolívia entre 1993 e 1997. Em 2002 tentou outra vez e venceu. Mas não durou.

Em 2004 país vivia uma crise econômica pesada e uma das soluções era vender o gás da Bolívia pouco industrializada para o Chile muito industrializado. Foi quando a oposição, liderada por sindicalistas cocaleiros, apela para a ancestralidade e faz renascer nos povos indígenas uma rivalidade datada do século 19: a Guerra do Pacífico, quando o Chile toma o litoral da Bolívia e anexa parte do Peru.

A revolta nas ruas dizia: já levaram nossas praias, não levarão o nosso gás. Goni teve que fugir para os EUA. O vice Carlos Mesa assumiu mas a violência escalou para a chamada Guerra do Gás: 80 mortos e 500 feridos. Renunciou também. Em seguida derrubaram os presidentes da Câmara e do Senado e entregaram o poder à Justiça até que novas eleições fossem realizadas.

Em 22 de janeiro de 2006 Evo Morales assumia a Presidência da Bolívia. Fez um governo popular, com êxito econômico e diminuição da pobreza. Ficou até antes de anteontem, quando teve que fugir para o México.

Na política boliviana quem entra deve estar disposto a enfrentar as batalhas de qualquer lugar e uma além: os confetes. A tradição local é encher os cabelos dos candidatos. Quem brinca o carnaval sabe: anos depois de uma folia bem feita, você tira a palmilha do sapato, afasta um criado mudo e lá estão eles, como uma maldição.

 
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