Facebook YouTube Contato

Música, a língua universal

Tive uma passagem rápida pela propaganda. Modéstia fora, tinha talento. Mas não tenho vocação. E guardo lembranças mais agradáveis do que desagradáveis daquele então.

Com muito carinho, por exemplo, me lembro de uma convivência que em menos de um mês se tornou inesquecível. Um craque do setor chamado Toninho Neto trabalhava na Fischer Flórida e veio ao Brasil cobrir as férias do Silvio Mattos, que era diretor de criação em São Paulo.

Toninho foi o cara que botou “É melhor ser alegre que ser triste” do Vinícius de Moraes para vender hambúrguer. Os críticos da multinacional podem estrilar à vontade. O filme era lindo e nutria a alma de quem o assistia entre uma e outra novela.

Naquele período enfrentamos uma concorrência interna para a campanha de lançamento de um aparelho de telefone celular asiático, cuja maior virtude era ser pequeno e muito fino. Vejam como mudam as coisas: hoje tais atributos são secundários.

O conceito do Toninho era lindo e tive a lisonja de ser escolhido redator para criar os títulos das peças. Ele queria um clima refinado e lúdico, onde coisas grandiosas da humanidade refletissem a nossa pequeneza, o imensurável valor de um instante de beleza, para afirmar que o celular era minúsculo.

E as peças ficaram mais ou menos assim: Trabalho de pouso / Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro / Pequena é a janela / O celular é minúsculo. E seguiam variações com outras referencias de vida boa.

O cliente gostou mas achou refinado demais, pontuou que o público alvo, mesmo sendo gente endinheirada, não entenderia, e acabou escolhendo a proposta de outra dupla, que também era boa.

Mas o deleite foi o argumento que o Toninho usou para defender a nossa campanha: ninguém precisa saber inglês para entender Cat Stevens cantando “It’s not time to make a change / Just relax, take it easy / You are still Young / That is your fault / There is so much you have to know…” Como discordar? O lúdico nos torna mais permeáveis e compreensivos, me parece óbvio.

Hoje abro os jornais e encontro duas evidências para a teoria do Toninho. No Estadão o biólogo Fernando Reinach traz uma pesquisa baseada no trabalho do filósofo e linguista Noam Chomsky e sua equipe, que demonstra que “as línguas faladas nas mais diversas culturas possuem estruturas comuns compartilhadas por toda população”.

Os pesquisadores cruzaram dados e canções de 315 diferentes sociedades e notaram que quatro tipos de canções são comuns: amor, dança, ninar e cura. E convidaram leigos e especialistas para ouvir canções produzidas por culturas com as quais jamais tiveram contato, sem informar origem e contexto, e avaliar os diferentes graus de religiosidade, excitabilidade e formalidade. Resultado: 70% de acerto.

Então abro a Folha e, de carona com o repórter Igor Gielow, vou a Hong Kong conhecer o tenor italiano Stefano Lodola, que sem saber patavina de cantonês gravou Glória a Hong Kong, hino não oficial do Movimento dos Guarda-Chuvas, que incluem canções diversas em seus atos. Viralizou na internet e emociona a juventude que o assiste cantando nos protestos.

Mais: o Movimento dos Guarda-Chuvas usa canções que falam de liberdade ou revoluções que vão de uma adaptação de Os Miseráveis para o musical até o hino dos Estados Unidos. Como não reconhecer que a música é de fato a linguagem universal? Quem, sem falar palavra em italiano além de pizza, não se arrepia e entende perfeitamente o significado de Bella Ciao?

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>