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O dia em que João Doria evitou um massacre

Corria bem o convescote. Até que… Mas antes vamos contextualizar.

Numa manhã de sábado, véspera das eleições presidenciais de 1998, dezenas de Porsches se reuniram na avenida Europa, Zona Oeste da cidade de São Paulo, e saíram em cortejo pela rodovia dos Bandeirantes até Indaiatuba, interior do estado. O destino era o Helvetia Polo Clube, condomínio dos mais exclusivos do mundo.

Num dos gramados infinitos do local, os carros foram dispostos para apreciação do público, que também contava com uma partida do nobre esporte para se entreter. Era o Porsche Polo Day, criado por João Doria Júnior, ora governador de São Paulo, com quem eu estagiava naquele então. Creiam: aprendi muita coisa com ele e sou grato.

Como da batalha equestre a turma entende pouco ou coisa nenhuma, e no final das contas os Porsches, apesar de lindos, são muito parecidos, o público se concentrou em torno das tendas que ofereciam um convescote impecável, com uísque sessenta anos (juro) e champanhe de verdade. Nas rodas de conversa, os chapéus dos presentes prevaleciam sobre os carros e os cavalos.

Então chegou a hora das premiações, que servia de reclame, posto que alguém estava pagando a festa e obviamente esperava retorno pelo investimento.

Eram vários os troféus: carro mais bonito, mais conservado, mais colorido, equipe vencedora, equipe perdedora, jogador artilheiro etc. E além dos canecos cada premiado receberia mimos dos patrocinadores: garrafas magnum, relógios suíços, artigos franceses em couro, tudo das melhores marcas que o mercado de luxo foi capaz de produzir.

Problema: a festa estava tão boa que ninguém queria saber da premiação. Mas a ideia é que cada um pagasse pela tarde ouvindo os nomes dos que fizeram os cheques. Impasse.

Foi quando João teve a ideia de sortear meia dúzia de folhinhas que a famosa marca italiana de pneus criou sob inspiração da decoração das borracharias. São obras de arte, hoje peças de colecionador, com uma dúzia de top-models  fotografada por quem mais entende de luz no mundo. Critério do sorteio: quem chegar antes.

Foi um estouro de manada. Em questão de minutos, depenaram o palco, o pódio, tudo. Sobrou uma estatueta em prata do Joãozinho Caminhador porque eu consegui salvar, e depois com pesar devolvi ao representante da marca.

Em seguida, atônitos, nós da organização não sabíamos o que fazer. E surgiu a dificuldade intransponível: perguntado sobre o relógio de milhares de reais que usava no pulso, igual a um dos que seriam entregues como prêmio, um jovem de aparentemente quinze anos respondeu: é meu, ganhei do meu pai. Deixamos pra lá.

Fico imaginando como acabaria aquele dia se João Doria já fosse o chefe da polícia em São Paulo. Sobre o massacre em Paraisópolis o governador disse que a política não vai mudar e que as ações contra o crime, como roubo, vão continuar.

Receio que aquela tarde acabaria exatamente como acabou. O protocolo aparentemente é esse mesmo, dois pesos, duas medidas. O garden party duraria por horas a fio, assim como o pancadão de Paraisópolis durou. Mas pelo menos não teríamos enterrado nove jovens que tinham entre quatorze e 23 anos.

 
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