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Um cabo, um soldado e um contador

Me lembro de uma crônica do Luís Fernando Veríssimo onde um personagem narra em primeira pessoa como é tratado: me chamam de doutor, mas sou rico, não doutor.

Pude experimentar a sensação lá pelos vinte anos, ao ganhar um sedã escuro. Cheguei no posto de gasolina que frequentei a vida inteira sendo tratado pelo nome e, ao ser reconhecido a bordo do carro bacana, a brigada amiga exclamou: fala, doutor!

O mesmo fenômeno aconteceu com o Posto Ipiranga. Não o de combustível, que ainda vai pagar caro por ter ido de bordão a apelido do fiador deste governo desastroso, mas com o próprio ministro PaGue.

Pelos falsos pudores tão bem cultivados, a elite financeira nacional precisava de uma desculpa para admitir simpatia pela agenda Bolsonaro, e PaGue surgiu como o ideal. Não pelo histórico acadêmico-econômico, mas pelo financeiro. Traduzindo: PaGue é aceito por ser rico, não por ser doutor. Ou por outra: é doutor porque é rico, não pelo título que, sabe-se lá como, tirou em Chicago.

Curioso como a elite é ralé. No sentido arendtiano. No buarqueano, PaGue é o barão da ralé.

Ocorre que, vendo seu pacote de reformas adiado pelo chefe, simultâneo ao ocaso da agenda Chi-Chi (Chile – Chicago), que lhe é tão cara, PaGue estrilou. Foi a Washington e fez os avisos e sugestões que queria. Incluindo câmbio alto e até AI-5 em reação a um levante similar ao chileno. As consequências estão aí: câmbio alto, prejuízo com EUA, relações institucionais abaladas.

Como tudo pode piorar, as notícias de oscilação positiva na economia, que estão nas manchetes dos principais jornais do país, são questionadas por um dos mais prestigiados e conservadores jornais econômicos do mundo, o inglês Financial Times (FT) – que por sinal há uma semana elogiava o pacote PaGue.

O FT desconfia dos dados do Ministério da Economia sobre o PIB (Nelson de Sá desenhou aqui.). Desconfiança baseada na revisão dos números exatamente na semana em que o ministro sofria revés político e nos estoques publicados nos balanços das empresas, altos demais para combinarem com aquecimento econômico. E Michael Stott, editor do jornal para América Latina, perguntou no tuíter se podemos confiar nos dados da maior economia da região. É grave. Gravíssimo.

Se a desconfiança internacional se confirmar, estaremos fritos. No lugar do AI-5, ou de um cabo e um soldado, PaGue terá dado um golpe com um contador.

Mesmo assim, a Faria Lima acaba de levar a Bolsa a 110 mil pontos, recorde histórico. Definitivamente, Paulo Guedes é o Barão da Ralé.

 
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