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O fator Dias Gomes

Dum e doutro lado radicais estrilam contra a TV Globo. É impressionante. Compreende-se a mágoa geral pelo apoio ao golpe do primeiro de abril de 1964, a edição tendenciosa do debate de 1989, o Galvão Bueno. Mas noves fora o último, a empresa fez a autocrítica que a sociedade tanto pede a outras entidades e deu em nada, donde se leva a crer que pouca gente está disposta a pelo menos baixar o tom durante o funeral do diálogo.

Mas a verdade, cientificamente provada, é que notadamente pela dramaturgia a Vênus Platinada ajudou e muito o progresso brasileiro. A pesquisa inteira ainda não está disponível fora da academia, mas o que interessa já é público e prova como e porque as novelas da Globo ajudaram o País.

Trabalho de brasileiros radicados na América do Norte – os economistas Cláudio Ferraz e Luiz Meloni – o artigo Fator Dias Gomes – apelido que surrupiei do repórter Rafael Carriello, que contou a história na Piauí de novembro – prova quanto O Bem Amado contribuiu para a formação de uma consciência crítica sobre o populismo e o coronelismo no Brasil, e com efeito abalou a Aliança Renovadora Nacional, partido da ditadura militar.

A boa relação dos Marinho com a ditadura permitiu a expansão acelerada da emissora pelo País na década de 1970, bem como certa liberdade artística, sem a qual O Bem Amado não iria ao ar. E deu-se o que os ditadores não previram: nas cidades onde o canal 5 chegava, a Arena definhava.

Mais exatamente, os pesquisadores cruzaram os dados relativos ao conteúdo de crítica política das novelas com os resultados das eleições municipais de 1972, 1976 e 1982, e concluíram que, ao reconhecer em Odorico o coronel local, a turma foi se libertando. Viva Dias Gomes, o nosso Molière!

Sei que a luta é inglória e que a implicância com a Globo não vai passar, muito menos por minha causa. Mas se esta freguesia pensar nos grupos mais vulneráveis, mulheres, pretos e pardos, nordestinos, favelados, gays, imigrantes, será difícil negar o papel do plim-plim na harmonização social brasileira.

Talvez mais fácil seja reconhecer o retrocesso. Como pode a Regina Duarte, que quando Malu Mulher era hostilizada pelos reaças na ponte-aérea, hoje relativizar o bolsonarismo? Ou o Silvio Santos, cujos calouros eram avaliados por Elke Maravilha, Dercy Gonçalves, Roberta Close, Aracy de Almeida, Sérgio Mallandro, Sônia Lima e Pedro de Lara ou Wagner Montes fazendo os vilões reacionários, estar hoje nesse papel? Da Record nem vou dizer. A TV dos Festivais!

Porém, ao que tudo indica e talvez mereça ter os dados cruzados com a representação política atual, no mesmo esquema do “Fator Dias Gomes”, seja a ascensão simultânea dos programas policialescos, sensacionalistas e de pregação religiosa raivosa. As sessões de ontem da CPMI das Fakenews e da Previdência estadual na Assembleia Legislativa de SP foram de ruborizar o Ratinho. Mas agora é tarde.

 
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