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Soube que você pinta casas

Corta. Corta. Corta de novo. Corta mais. Edita. Não tem jeito. Ou outro jeito. Tem que cortar. Sem cortar, muito provavelmente Martin Scorcese não teria entregue Taxidriver, Os bons Companheiros, Casino e outras tantas fitas.

Fico imaginando a dor de condenar à gaveta bordões, diálogos, cenas, sequências inteiras. Cortes, podas, lapidações que transformam filmes em obras-primas. Só que dói cortar. Tenho certeza que dói.

E depois de tanto trabalho conjunto a dor deve se estender para além do diretor ou do roteirista. É de se supor que Al Pacino, De Niro, Joe Pesci e outros bambas dos filmes de gangster, em algum momento, tenham participado da escolha sobre o que manter, o que limar. Meteram cacos. Fizeram melhor uma cena preterida pelos chefes dos estúdios. Trouxeram ideias. E ganhamos Era Uma Vez na América, Touro Indomável, O Poderoso Chefão.

Uma evidência é “Soube que você pinta casas”. Como não dar a luz, literalmente, um bordão desses? Fico imaginando os companheiros reunidos numa ocasião qualquer, lembrando dos cortes que tiveram que assumir, comentando as memórias de Charles Brandt escritas por Steven Zaillian. Vai ano, vem ano, e o assunto volta: “Tinha ficado boa aquela cena, será que a gente fez bem em cortar? / E o Jimmy Hoffa? Que personagem! Eu faria. / Eu também. / E eu.”

De repente começam as comparações entre velhos amigos. Velhas amizades permitem franquezas sem melindres. E De Niro comenta com Al Pacino: “Quando você matou o Turco e o Capitão McCluskey… O Coppola é um craque, a aflição do Mike procurando a arma atrás da caixa de descarga, o pó de sangue no ar… A cena é brilhante. Mas sabemos, pelos laboratórios, que é quase impossível. Um assassinato desses não aconteceria assim perfeito. Eu faria mais bagunçado.” Os demais assentem. E anotam.

Ao longo dos anos, acredito, dezenas de conversas assim devem ter se repetido. Até que um deles tomou coragem e disse “Estamos bastante entrados nos anos e boas ideias não faltam para filmar tantas coisas boas que guardamos. Capital para produzir muito menos. Por que não?” Os demais assentem. E combinam: não devemos nada a ninguém. Vamos fazer O Irlandês.

A história oficial é outra e muito mais complexa. Falamos de indústria, 159 milhões de dólares em investimento (podiam ter gastado até duzentos). Consta que De Niro teve que insistir longamente até Pesci aceitar. E a fotografia? Cedemos ao digital ou usamos a boa e velha fita de 35 mm? Trinta e cinco. Fita. Fita. 35. Mas e para a gente ficar com a metade da idade, maquiagem ou computador? Computador.

Meu palpite – e a confirmação definitivamente não me interessa – é que nas raízes da produção a história se desenrolou assim. Ganhamos três horas e meia de ode à amizade, pelas quais devemos agradecer por cada minuto. Obrigado, companheiros.

 
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