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Democracia inda que tardia

Está em voga falar sobre os tantos livros recentes, vendidos aos milhares mundo afora, que tratam do ocaso da democracia. Meu palpite, contudo, é que deveríamos pensar se ela algum dia se estabeleceu.

É comum o quiproquó. Falam tanto do horror do comunismo, como se este em algum lugar tivesse existido. Nunca aconteceu. As comunas da Europa mediterrânea até que chegaram perto pelo compartilhamento de máquinas, produção e força de trabalho, sem esquecer do bandolinista sem vocação para agricultor ou artesão, mas cuja poesia é reconhecida como necessária para aliviar a faina. Não por acaso, os índices mais altos de satisfação com a vida são encontrados por lá.

Muito diferente é o regime socialista imposto pela força em alguns países, corriqueiramente chamados de comunista, mas que de comunistas tinham no máximo uma inspiração, confortável e convenientemente esquecida  sempre que a dominação dos povos era concretizada.

A mesma coisa acontece com o cristianismo. Em nome de Jesus fizeram e seguem fazendo cruzadas que, ao que tudo indica, o Nazareno reprovaria e daria a própria vida combater. O que me faz lembrar da cena da confissão do Michael Corleone ao cardeal Lamberto junto a uma fonte no Vaticano. O futuro papa apanha uma pedra porosa imersa há séculos em água, bate com ela na borda da fonte e revela seu interior seco. Metáfora: qual a pedra em água, o Ocidente vive há séculos imerso em cristianismo mas não o absorve.

Com a democracia o fenômeno é semelhante. Recentemente houve revoluções, mais recentemente incluímos analfabetos, pobres, mulheres, algumas idas e vindas, autoritarismo, guerras, genocídios francos ou dissimulados, tudo para sintonizar a marcha histórica a favor de quem sempre nela mandou: o capital.

Então voltamos ao Poderoso Chefão III, quando demônio Luchesi explica: dinheiro é uma arma, política é saber quando espremer o gatilho.

É natural que a turma considere os políticos culpados por tudo o que não dá certo. O sistema é desenhado com essa intenção. Culpado é quem teoricamente tem conferido o poder para espremer o gatilho. Mas na prática isso só pode acontecer se quem tem a posse da arma decidir empresta-la.

Tenho pra mim que todo a instabilidade social espalhada pelo mundo deriva do desequilíbrio financeiro. Em que pese as selfies terem faces variadas, na raiz o problema é o mesmo: aflição com as contas que vencem mês a mês. Os mesmos Estados Unidos, que festejam o pleno emprego, têm centenas de pessoas desabrigadas. O sujeito trabalha diariamente, ganha salário, mas não tem onde morar. Na Califórnia, com empresas valendo trilhão, falam de cinquenta mil pessoas vivendo em barracas ou automóveis.

E como reagem os bilionários? Com filantropia. Ou pilantropia. E o cordão da bajulação agradece de joelhos. Ai de quem disser ridículo ou imoral que meia dúzia de pessoas se julgue sabedora do que fazer em educação e saúde, ameaçadas pela mesma austeridade que produz tais fortunas, ou que proponha financiar a proteção do meio-ambiente com o dinheiro que vem do parafuso de produção e consumo que o destrói. Isto não é democracia, mas plutocracia, como sempre foi.

Não há alternativa para a crise social mundial ou da democracia fora da distribuição de renda que garanta o básico a cada pessoa. E o círculo para que ela funcione passa por cobrança de impostos e decisão democrática sobre o investimento social básico. Quer dizer: educação, saúde, Justiça, liberdade, proteção do meio-ambiente e todo outro tema essencial deve respeitar um patamar mínimo, abaixo do qual ninguém jamais estará. Para além dele, podemos conversar sobre quais degraus desejamos galgar coletiva ou individualmente. Mas só a partir dele.

Esteja à vontade quem quiser chamar de utopia. Mas na verdade é democracia – goste-se ou não dela.

 
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