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A sexta-feira 13 no Reino Unido

Dia desses me peguei lendo spoilers sobre The Crown. Era um apanhado inspirado nas agências de checagem de fatos criadas para combater notícias falsas. Quer dizer, elencaram algumas passagens polêmicas e separaram o que é histórico do que foi romanceado.

Li sem receio de estragar a diversão. Mas entendo que é algo pessoal e advirto: vou contar nos dois parágrafos seguintes a cena que mais me marcou para então introduzir minha avaliação sobre o que aconteceu ontem lá entre os ilhéus.

Apaixonada por cavalos e corridas, a rainha Elizabeth andava decepcionada com o desempenho de sua tropa. No muxoxo, tornou-se saudavelmente vulnerável aos conselhos do chefe de suas cavalariças, Lord Porchester, carinhosamente tratado por Porchie, que a estimula a viajar para conhecer novas técnicas de preparo dos animais. E lá vão eles.

Muito sutilmente o roteiro sugere um namoro. Entregues à afinidade da paixão pelos cavalos, armam piquenique, jantam a sós e ela exige não ser incomodada pelos demais serviçais. Dedicação total a Porchie. (Vá lá, mais dois parágrafos-spoiler.)

Na volta a Londres, despachando em seu gabinete residencial, recebe a visita do príncipe Philip padecendo de notável dor-de-cotovelo. Ele assunta sobre a viagem, ela confirma tudo o que pode ser confirmado com naturalidade. Então ele dá a volta na escrivaninha, a beija na boca e se despede.

Neste momento a corda e a caçamba do tesão explodem no ar. Isto é: poder e pudor tomam a cena. Animada, a rainha avisa que subirá dentro de um minuto. O príncipe para, faz meia-volta e indaga se entendeu o recado, ao que ela decreta: sim, pensei nisso. Colosso de cena.

Tudo isso para dizer que são assim os ingleses. Deixam rolar porque acreditam que ao cabo tudo se ajeita a favor deles. Talvez seja próprio da Coroa, que tem motivos para acreditar nisto, e acabou contaminando a nobreza, que contaminou a burguesia, que contaminou o carvoeiro.

Não vejo outra explicação para eles terem abraçado assim a incerteza confirmada nas eleições de ontem, terceira em cinco anos e com o referendo sobre o brexit no meio. O líder conservador Boris Johnson, que fala em hard-brexit, obteve retumbante vitória. A oposição mais densa, Trabalhista, também apostou no vai ou racha e permitiu ser liderada pelo correligionário mais inflamado, Jeremy Corbyn, afundando-se.

Mais grave: 1/3 do eleitorado (32,75%) não compareceu para votar. Vá lá, inverno alto, dia curto, chuva, voto facultativo etc. Mas a rigor era o brexit, determinante para o futuro já a curto prazo.

Nesta sexta-feira 13, o que era previsível aconteceu. Os jornais escoceses amanheceram autorizados a falar em independência e permanência da União Europeia. E sobre como pode reagir a Irlanda do Norte, com o passado recente tão conturbado e uma fronteira com a Irlanda que vale por uma cicatriz, ninguém se arrisca a fazer previsões.

É inacreditável. Da Europa o Reino Unido teve tudo que quis. Manteve moeda própria, bem como sistema de pesos e medidas e até posição ao volante, tanto político quanto no automóvel. E mesmo assim, aprontaram uma dessas – ou será exatamente por isso? Na cabeça deles, quando o Big Ben disser que é sábado, a sexta 13 será passado. Eu duvido.

 
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