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O otimismo filho da angústia

Hoje é dia de Reis, meu quadragésimo, e continuo me dando mal com o ouro, detestando incenso e sem a menor ideia do que é ou para que serve mirra.

Mas a data é boa, festiva e combina com uma segunda-feira que marca a chegada dos anos vinte. (Sim, eu sei que não é bem por aí, estou uma semana atrasado de um lado e antecipando ansiosamente 360 dias do outro.)

Por incrível que pareça, e apesar das tantas e tamanhas estultices que os governantes, aqui e alhures, já conseguiram falar e fazer aos seis dias do ano, me sinto otimista. Pode ser instinto de sobrevivência, até porque racionalmente não tenho para hoje nenhum motivo para tanto, mas vira e mexe me pego otimista.

Algo egoísta, tenho pensado em mim mesmo nos seguintes termos: vivi mais tempo no século 20 do que no 21. Dentro de alguns poucos anos, se tudo der certo, a equação vira, e estarei há mais tempo neste do que no século passado. O problema é que, por maior que seja meu esforço de adaptação, me sinto completamente fora de sintonia com o mundo atual e duvido que a virada fará diferença.

O chiado só não é maior do que o barulho do passado, que ecoa da cultura que está em mim e pela qual conservo afeto, mesmo sabendo que já não mais se encaixa em qualquer lugar, em contexto nenhum.

Ver com clareza que o problema é geral ameniza a sensação de egoísmo. Mas notar que, por ser geral, a falta de sintonia permanecerá, eleva o ruído que tudo aquilo que não se encaixa provoca – e que pode até escalar dadas a velocidade projetada das mudanças e a resistência natural às grandes velocidades.

Donde brota otimismo diante de um cenário assim? Creio que da história da humanidade. Sempre que as finanças explodiram, para combater ou evitar o colapso o mundo serenou e arranjou solução. Nos casos mais conhecidos do século passado, a solução pós 1929 foi bem melhor que a de 2008, mas a verdade é que em ambas as experiências a turma se acalmou e houve saída. O mesmo vale para as duas grandes guerras. A angústia é pensar em quando afinal a turma vai se tocar que é urgente parar para combinar uma saída.

Hoje, debaixo de nossos narizes, temos vários problemas e de potencial ainda maior, e não só financeiros ou bélicos, mas sociais, culturais e ambientais, todos juntos e misturados. É improvável que o inconsciente coletivo opte por seguir rumo ao precipício definitivo. Sempre freamos antes. Então, que assim seja. Mas logo.

Que venham os anos vinte, e que sejam leves e belos para todos nós.

 
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