Facebook YouTube Contato

Panela de pressão

Uma delícia para mim é usar panela de pressão. São vários os motivos. Primeiro,  lembra minha irmã Maria Cláudia, que nas férias em São Paulo preparava doce de leite cozinhando a lata de Leite Moça fechada.

Além de gostoso pro paladar era também para o espírito, uma aventura para as crianças, sozinhas, lidarem com aquela panela estranha, lúdica, ameaçadora. Fora o risco de sermos traídos pela ansiedade, errando o ponto de esfriamento e metendo o abridor com o interior ainda quente. Espirrava um jato que podia causar queimaduras sérias. IMPORTANTE: não tentem fazer em casa.

Outro motivo é a Dona Onça, maior especialista na tecnologia. A coleção de panelas de pressão da Janaína Rueda só não é maior e mais interessante que a das receitas que ela é capaz de executar. Minha predileta é o acém com legumes, praticamente um cafuné no prato.

Ainda tem a piada sobre a fantasia de carnaval que meu pai repete há décadas, mas esta é muito coisa de tiozão do século vinte e hoje em dia não encaixa nem durante a folia. Gosto mesmo assim, só não uso mais estando sóbrio.

Mas o que me enterneceu neste começo de ano foi o preparo da única receita que desenvolvo bem na pressão: feijão. É tão bonito quando a válvula começa chiar. É música. Vai perfumando a casa, trazendo lembranças, aquecendo a alma.

A sensação equivale a um passeio de maria-fumaça. Pena que dura pouco. O risco no caso é a gente se encantar com o clima e deixar rolar. Feijão queimado fede pra danar e impregna. Evite a todo custo. Tenha o Trenzinho Caipira do Villa à mão se quiser prolongar o prazer. Faz bela harmonia.

E já que estou viajando, embarquei agora numa estação no Rio Grande do Sul. Deixei a bagagem na cabine e fui ao vagão restaurante pedir uma bebida para acompanhar a viagem. Esta ferrovia percorre toda a BR-101, quatro mil e tantos quilômetros de litoral, chegando ao Rio Grande do Norte. E logo será ampliada até o Amapá, onde haverá conexão com a hidrovia da Bacia do Amazonas, que passa por Belém e Manaus, depois desce pelo Centro Oeste e volta ao Sudeste pelo Tietê e ao Sul pelo Paranapanema/Paraná. Será um passeio e tanto.

Sim, estou sonhando. Dormi bem mas acordei com cheiro de feijão queimado. Abri a Folha e li que, aos quinze meses de operação, o trem que liga a Estação da Luz ao aeroporto internacional Governador André Franco Montoro, em meia-hora por R$8,80, tendo capacidade para dois mil passageiros viaja, em média, com 36 pessoas a bordo.

Motivo principal: invés de alcançar os terminais, como seria lógico e acontece em qualquer lugar civilizado, os governos do PSDB condenaram os viajantes a desembarcarem num ermo e esperarem um ônibus, dobrando o tempo de viagem e principalmente ofendendo a inteligência do cidadão.

Como diria Vavá, ex-prefeito do interior de São Paulo, “governo é igual feijão, só funciona na pressão”.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments