Facebook YouTube Contato

Paulo Guedes é um número

Os antigos diziam das pessoas fanfarronas: fulano de tal é um número. Número no sentido de entretenimento, de alguém que diverte as rodas. A minha geração usava “uma peça”. A turma dos anos 1970, com os motivos daquele então, preferia “um barato”.

PaGue sempre divertiu os colegas de academia com seus palpites apocalípticos. Ganhou a alcunha de Beato Salú, em referência ao louco da praça que pregava o fim do mundo.

Dada a bagunça que o mundo vive desde que a realidade chegou em 2008, com tanta gente bancando o bêbado que, na ressaca da manhã seguinte pede um chope para rebater – ou seguir pedalando pra não cair –, chegamos a tal estado de consciência que Paulo Guedes passou a ser alguém sensato. É da vida. Paciência.

A política econômica atual é a mesma desde 2015, quando Dilma 2 nomeou Levy, cedendo à pressão do chamado mercado, que depois de se esbaldar no chope do dia seguinte oferecido por Lula para furar a “marolinha” de 2008, e continuar se esbaldando nas pedaladas de Dilma como se não estivessem vendo a falsa ciranda que alimentava o Tesouro, implorou por internação e abstinência. Desde então é isso: dureza, austeridade – e tome privatização ao modelo de quem vende a prataria para jantar fora.

O fato inescapável é que vivemos a retomada mais lenta da história, mas como no curral VIP da Faria Lima vai tudo muito bem, obrigado, o establishment aplaude e afirma que as coisas estão melhores. Balela. Mas é crença, fé cega, e como vimos na repercussão do insosso especial de final de ano da Porta dos Fundos, não se pode brincar com a fé.

Daí que o sujeito está lá todo atrapalhado, pagando o Visa com o Mastercard, mas não deixa de acender uma vela para o Beato Salú. E ai de quem disser que rezar – ou torcer – para dar certo é a mesma coisa que ficar em casa deprimido, tomando milk-shake, torcendo para emagrecer.

De verdade, não surpreende. Dilma 1 fez sim uma lambança na economia, mandando dinheiro de um banco estatal para outro até voltar ao Tesouro para simular caixa e responsabilidade fiscal. Mas a bem da verdade é justo dizer que os números reais estavam claros, só não via quem não queria. Cansei de falar aqui, mas eu era o pessimista.

Tal cenário, que imagina-se impossível de piorar, piorou. Com PaGue sequer nos números podemos confiar. Divulgaram a alta do PIB (pibinho) no final do ano passado depois de uma revisão dos números na mesma semana, e o mercado brindava enquanto o dinheiro estrangeiro fugia.

Foi quando o jornal conservador inglês Financial Times, que uma semana antes elogiava PaGue em editorial, botou o gato no telhado dizendo que o PIB não condizia com a realidade. Naquele dia a fuga de de dinheiro estrangeiro foi recorde. E como reagiu a equipe econômica? Dizendo que sim, pode ser, e que no primeiro trimestre de 2020 o número seria mais uma vez revisado.

O efeito dessa escuridão equivale para a economia como o guarda da esquina para o AI-5, momento tão prezado por Paulo Guedes. Ora, se o Ministério da Economia cascateia, os demais players econômicos acompanham. Cara dura, cara dura.

As vendas de Natal são um exemplo. Uma associação cravou que as vendas aumentaram. Em seguida outra disse que não, ou muito pelo contrário, mostrando que as vendas caíram.

Metidos numa situação assim, em quem devemos confiar? Quem pode estar falando a verdade? Talvez o próprio ministério da Economia, através do IBGE, que a ele é vinculado.

Eis os números: inflação acima da meta – apesar da estagnação. Mesmo com a previsão bastante parecida com a nossa meteorologia, estimando fechar entre 2,75% e 5,75% (parece ou não máxima de 30 e mínima de 18 graus?), a meta, que era fechar em 4,25%, acabou em 4,31%. Repetindo: isso sem consumo. E como ser pobre é o que há de mais caro, para o estrato econômico mais baixo, que mede o IPC-Classe 1, a inflação bateu 4,6%, segundo o IPCA da FGV.

E a indústria, pobre indústria nacional? Diga o IBGE: “Em novembro de 2019, na série com ajuste sazonal, o setor industrial teve queda de 1,2% em relação a outubro. Houve redução das quatro grandes categorias econômicas e em 16 das 26 atividades pesquisadas nessa comparação. A queda de 1,2% elimina parte de 2,2% acumulada no período agosto-outubro de 2019. Com esses resultados, o setor se encontra 17,1% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011.”

O que fará o governo? Publicar um vídeo escatológico nas redes do Presidente? Demitir um diretor do IBGE como fez com Galvão do INPE? Buscar um santo diferente de Salú para os devotos orarem? A ver.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>