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Gripe

Chama-se República Oriental do Uruguai aquele pequeno grande país ao leste do extremo sul da América Latina. Por dentro, porém, nada há de extremo. Como o Pompeu de Toledo tão bem desenhou numa Veja recente, com a última eleição para a Presidência terminada com menos de 1% de diferença entre os concorrentes, estes foram juntos, literalmente abraçados, à posse do novo governo argentino durante a transição dos mandatos.

Do lado de lá do Atlântico, no extremo oeste da Europa, encontramos nossa Terrinha querida, Portugal, porto do Mar Sem Fim, onde a cena política também vai bem, obrigado, com extremismos afastados e a Geringonça navegando em mar de azeite, como diria o Amyr Klink.

Não sem razão alguém poderá dizer do inconveniente de tomar como exemplos primeiro um país com população equivalente a da Zona Leste da capital paulista, depois outro com metade da população da Grande São Paulo. Mas também é verdade que em política tais armaduras inexistem, tanto é que Portugal e Uruguai, tendo o primeiro o triplo da população do segundo país, conseguem harmonia e urbanidade nas questões públicas. Quer dizer: se a harmonia pode escalar de três para dez milhões, por que não para duzentos, trezentos milhões de pessoas?

Sinceramente não vejo impedimento, porém confesso desalento. Estou cansado. Muito. Diante dos fatos das grandes nações, quando um sopro de otimismo me acomete, desconfio de uma gripe emocional, ou minimamente o equivalente a um resfriado que a gente pega quando dá mole para um vento nas costas. Este velhinho já não pode com friagem física, e muito menos emocional.

Ler o Amanhã Vai Ser Maior, vitamina C pura em forma de livro da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, anima. É um acalanto a pesquisa da professora, serena a alma e aponta caminhos, mas então a gente sai na rua e parece tudo tão distante… Volto a espirrar. Haja lenço.

Lá nos Estados Unidos as coisas caminham para que se renove o contrato do atual inquilino da Casa Branca por quatro anos. Sem dúvida ele tem seus ardis e encontra eco na sociedade até para além dos muros que gostaria de erguer. Mas minha impressão, e incompreensão, é sobretudo com o lado adversário.

Donald Trump constrangeu e praticamente impôs a nada menos que 40% de congressistas do partido Republicano aposentadoria precoce. Sem disposição para bajular o maluco, nem condições para seguir vida pública contrariando o gabinete mais forte do mundo, abandonaram a ágora. E como em política não há espaço vazio, obviamente foram substituídos. A qualidade da “renovação” esta freguesia pode imaginar, até porque exemplos aqui no Brasil não faltam.

Do outro lado, entre os Democratas, donde era de se esperar uma oposição serena, é que não sai nada. Se parece desejável e racional que tentassem uma ponte com os 40% de republicanos moderados, o que se encontra é a tradicional carnificina fratricida das eleições primárias.

Como nos contou o Roberto Simon recentemente na Folha, num evento de campanha Joe Biden foi perguntado sobre a possibilidade de composição com um republicano. Com jeito, o pré-candidato ficou de considerar, mas sem convicção. Jogando a bola para os republicanos, disse que o gesto deveria partir deles. Ato contínuo, seu primeiro adversário nterno, Bernie Sanders, aproveitou para surfar dizendo que, com ele, jamais.

Quem fez “a pergunta de New Hampshire” relatada pelo Simon foi uma senhora que verbalizava uma questão colocada por seu filho. Isto é, duas gerações e dois gêneros distintos convergindo. Mesma família? Sim. Mas isso ajuda ou atrapalha? Como estão as relações no grupo de WhatsApp da sua?

Porém não se anime, freguesa. Mesmo com Trump do outro lado, e tendo mais bons nomes para apresentar, como os das senadoras Amy Klobuchar e Elizabeth Warren, ou até do ex-prefeito Michael Bloomberg, ao que tudo indica os democratas chegarão ao final do ano em frangalhos.

 
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