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Harmonia nota dez

Entre a turma que conversa sobre comida há alguns que falam muito em harmonização, ou como combinar ingredientes que vão virar pratos, e então os pratos com as bebidas e por aí vai. De vez em quando rola uma surpresa boa.

Ando meio implicado com a palavra no contexto das comidas, mas como vou falar de gente e de carnaval, harmonia cai muito bem. E para juntar os dois temas, agradeço especialmente meu amigo e sommelier de blocos Marcelo Casarini.

E que beleza de harmonia está o carnaval de São Paulo. Ver a gente pela rua, brincando folgada por lugares históricos que não costumam visitar nem de carro, e se misturando com as pessoas que vivem no local, é harmonia perfeita, delicia de ver e viver.

Tenho acompanhado tantos blocos quanto a saúde de alguém que já dobrou a serra pode aguentar. Alguém poderá dizer que é mera dedicação à folia. Admito. Mas tem mais. Para além do folião há alguém apaixonado pela rua, especialmente pelo centro e os bairros velhos do seu entorno, que os antigos chamam de “cidade”, termo que eu adoro e uso, e passear pela cidade em meio a um cordão com centenas de pessoas, literalmente no meio da rua, tem sido um deleite. Afinal, a cidade é a gente.

Sábado pelo Delta Histórico, saindo do Páteo do Colégio, flanando o bloco pelo calçadão, terminando na Praça Antonio Prado entre o nosso coreto e o mergulho da linda São João. Domingo com concentração na Praça Vladimir Herzog, brincadeira pelas ruas do Bixiga, turma abrindo alas para o trânsito pedestre local, gente assistindo e festejando o cortejo das janelas dos sobrados, dispersão na Praça da Bandeira, que por um momento pareceu se de novo praça.

Entre os foliões, alguns fantasiados, outros vestidos de mulher, conforme a tradição. E principalmente mulheres vestidas de mulheres, com a roupa que querem, sem receio de serem importunadas pelo que escolheram usar.

E tantos artistas. Quanta gente aprendeu tocar algum instrumento para doar talento para a festa, como o  próprio Casarini, que carrega a tuba para nossa alegria. Outras tantas treinam números, pernaltas, malabares, fantasias. Tudo de presente para a gente.

Único conflito registrado é o da desigualdade que nos maltrata. É carnaval mas ela está lá, com os barões famintos vivendo sob as marquises. Mas de alguma maneira a festa pela rua, sem a famigerada corda, tem o condão de aplacar a distância, ainda que naquele instante.

Chamam de ilusão, eu sei. Dizem que vai acabar numa quarta-feira, sei também. Mas estar todo mundo junto e misturado, na rua, cantando as nossas marchinhas, nossos sambas e pagodes, é a nossa cultura, nosso patrimônio universal, imaterial, atemporal, real, que nos harmoniza e oferece um caminho, uma chance de Nação.

É bonito, é bonito. Harmonia nota dez. Entra no cordão. Vem brincar o carnaval.

 
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