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Orgulho vira-latas

A imagem de um vira-latas mijando na foto de um candidato a cargo público, impressa num cavalete, como se a boca do distinto um mictório fosse, virou meme, viralizou e não poupou quase ninguém.

É claro que o vira-latas, notado pela cordialidade, teria evitado o drama se soubesse o que fazia, porque que ninguém merece ser tratado assim. Que diga o maior dos absurdos, não merece. Por exemplo, se um jornalista sugere que a substituição do povo brasileiro pelo povo japonês transformaria o Brasil numa potencia em até dez anos, e que sequer gostaria de pensar no que seria da ilha do sol nascente no mesmo período, e o presidente da República Federativa do Brasil avaliza o discurso, ainda assim nenhum dos dois merece acabar como o meme.

Melhor é responder com fatos. Pra começar: o Brasil concentra a maior quantidade de japoneses que escolheram viver fora do Japão. Me parece justo admitir que tal fenômeno só existe porque os japoneses gostaram de viver por aqui, onde criaram descendência, misturaram sangue, culturas e costumes.

Em São Paulo, onde está a maior colônia japonesa, o número de restaurantes de sushi e, mais recentemente, de izakayas, sugere a mesma coisa. E que bonitinho é saber que nos caraoquês da Liberdade uma das músicas mais pedidas é Ronda, do Paulo Vanzolini, que nos cartões para inscrição na fila vêm com o título grafado com H, ou Honda. Cena linda no documentário sobre o compositor.

O inverso é verdadeiro. Consta que Tóquio é a cidade com a maior quantidade de bares especializados em Bossa Nova no mundo. Quem é do jogo bem sabe que os japoneses adoram o clima de inferninho do Beco das Garrafas, fumaça, uisquinho, banquinho, batidinha no violão.

Essa beleza a gente deve cultivar. Igual a tudo na vida há coisas boas e ruins tanto na cultura brasileira quanto na japonesa. Podemos ter o melhor de ambas.  Ufanismo é uma face da burrice, na mesma medida que é cretino seu oposto, ou o desprezo pela própria gente. Não surpreende que andem juntos no pensamento do capitão Jair e do sargento Garcia, que vão sem pudor do “Brasil acima de tudo” ao “povinho ordinário”.

Que fase! Mas apesar dela, há indícios que que eles não passarão. Os cães vira-latas estão por aí, cada vez mais queridos e admirados pelo borogodó natural, que só a salada genética batida ao longo dos tempos consegue entregar.

Se depois da vitória canarinha copa de 1958 o Nelson Rodrigues decretou o fim do complexo de vira-latas, gosto de pensar que estava certo, e nos anos seguintes demos um salto cultural que encantou o mundo.

Vinícius e Baden botaram a Europa de joelhos com os afro-sambas. A Bossa Nova, com João Gilberto, Tom Jobim e outros bambas se tornou o ritmo a América do Norte. Niemeyer e Portinari entregavam o prédio da ONU. JK inaugurava Brasília. Anselmo Duarte e Dias Gomes tiravam Palma de Ouro em Cannes com o Pagador de Promessas. Eder Jofre nocauteava quem desafiasse o Brasil. Jango abria conversa com a China e o planeta inteiro se embasbacava com a beleza de Maria Tereza Goulart. Todos vira-latas que confirmavam o Nelson: o complexo dava lugar ao orgulho da raça não definida.

Mas daí os Estados Unidos se assustaram, acionaram uns cachorrinhos de carpete de caserna por aqui, e submeteram o Brasil à ditadura militar que acabou com tudo, nos condenando, com apoio de meia-dúzia de entreguistas endinheirados, a vinte anos de atraso, cujo osso ainda roemos.

É de amargar ver a história se repetindo, com um capitão inconsequente, um sargento esperto e mais meia-dúzia de terraplanistas nos conduzindo de volta ao complexo de inferioridade. Há de ser um engasgo.

 
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