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A enchente é um presente – ou deveria ser

São Paulo alaga. Sempre alagou. Aliás, esta terra foi escolhida justamente pelos benefícios que os alagamentos oferecem.

Por favor não se assuste, possível freguesa. Sei do caos instalado depois do toró da madrugada. Sabemos todos. Há sofrimento e prejuízo. Possivelmente morte. Mas a culpa não é do alagamento. É nossa. Toda nossa. Culpa da nossa incapacidade de aprender com a história. Nossa própria história. A história do nosso chão. E dos nossos rios, do nosso clima.

Esta cidade começou num morrote em forma de delta entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí. Presente da Natureza, a elevação topográfica proporcionou a formação de uma vila simultaneamente protegida das águas e com todos os benefícios que ela traz.

Logo ali, ao pé dos barrancos, os rios ofereciam quase tudo e de colher para os primeiros paulistanos: água de beber, cozinhar, lavar. Peixes amanheciam dispostos no vale como que num milagre, bastando catar um logo depois da cheia para almoçar. A esmola era tanta e tão farta que a turma desconfiava. Daí no nome do rio, que em tupi significa rio do diabo.

As mesmas cheias fertilizavam o vale, onde era possível plantar e ter outros tipos de alimento à mão. Viaduto do Chá tem este nome em referencia à plantação da erva.

Até a mobilidade nos foi dada de presente pelos tantos rios. Na esquina do Pátio do Colégio, sob o que é hoje a rua 25 de Março, há um córrego de onde os monges do Mosteiro de São Banto embarcavam os bens que produziam e levavam de barco para comercializar ao longe. Partindo da Ladeira Porto Geral, São Bernardo do Campo era logo ali.

Porém, através dos 466 anos, especialmente no século XX onde o Homem achou que tudo podia, cometemos a proeza de não só recusar o presente, como acabamos com ele. Canalizamos córregos, retificamos rios. Literalmente cuspimos no prato em que comemos. E hoje, mais uma vez, amanhecemos afogados no nosso próprio cuspe.

As imagens que chegaram pelo WhatsApp logo pela manhã trouxeram um cenário caótico, mas que nada tem de novo. Ou por outra: a novidade são as escolas dos filhos das classes dominantes alagadas. Prejuízo material grande, mas que será sanado rapidamente. Ruim será se não for aproveitado.

Dentro do caos há uma coisa boa, uma oportunidade didática que os dirigentes das escolas deveriam aproveitar, inclusive estendendo a outras escolas do mesmo padrão não afetadas: convocar alunos e pais para a limpeza da lama. Sete Léguas, enxada e vassouras para todos. E ao final da faxina uma aula com autocritica histórica, frisando que aquele cenário, já sanado, é a realidade da imensa maioria das pessoas, que não têm a mesma possibilidade de resolver os prejuízos materiais e emocionais, e muito menos influência política para evitar que o caos se repita, e se repita, e se repita.

 
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