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Paulo Guedes bronzeado e o brasileiro corado

O bronzeado de Paulo Guedes, adquirido nas merecidas férias (sim, merecemos o silêncio do ministro PaGue mesmo que por alguns dias) foi curtido em Miami e desfilado em Davos.

Ocorre que, se na Flórida há gente celebrando o dólar mais alto da história porque assim as cidades ficam mais caras e com efeito livres das empregadas domésticas, em Davos a turma anda preocupada, e muito, com a desigualdade.

No Estadão de sábado o polímata Thomas Eckschmidt fez um resumo da última rodada do clube dos ricos, se concentrando em um termo novo: capitalismo stakeholder. Quer dizer, a crença de que só o lucro salva e que as empresas devem trabalhar para seus acionistas deve ser superada. Em seu lugar entra o capitalismo consciente e a ideia de que empresas são parte de um ecossistema.

Isto é, sozinha a empresa não existiria. Ela depende de gente, funcionários e consumidores, clientes e fornecedores; depende do meio-ambiente; só pode prosperar se gerar valores para além dos financeiros: sociais, emocionais, ambientais etc. Só assim poderá dizer que prosperou. Só assim a conta fecha.

Mais que bacana, é urgente que economia deixe de ser confundida com meras finanças. Economia = finanças + sociedade + meio-ambiente. Se um steakholder for esquecido, o prejuízo é de todos.

Importante 1: ninguém em Davos é bonzinho. Só são mais inteligentes ou espertos e podem pagar por inteligências assessórias. Perceberam enfim que ser rico em dinheiro não basta. Ninguém estará confortável num iate se houver gente faminta e miserável nas praias.

Importante 2: Ser rico não basta. É preciso continuar rico. E para tanto a economia precisa girar, circular. E esta vai parar se prosseguirmos com o sistema que faz hoje oito homens terem mais riqueza material do que a metade mais pobre da humanidade. Ainda: o inverso é verdadeiro, quando todos ganham, as empresas ganham mais. Larry Fink, CEO da Black Rock, que administra seis trilhões de dólares (o PIB da Alemanha é de US$ 3,7 trilhões), defende a ideia desde 2017. E o próprio Eckschmidt mostrou em seu livro Fundamentos do Capitalismo Consciente (Harvard) que, num prazo de vinte anos, empresas que adotam o capitalismo consciente deram resultado sete vezes superior à media do mercado (S&P 500).

Se parece comunismo, deixe o tabu de lado e relaxe, freguesa. É isso mesmo. A antítese do capitalismo é o socialismo, e o comunismo é a síntese entre ambos. Capitalismo foi bom para criar riqueza e teve êxito: há riqueza suficiente no mundo para que ninguém fique abaixo de uma linha de dignidade. O socialismo foi bom para repartir riqueza mas falhou na produção. Nosso futuro depende do reconhecimento das virtudes de ambos, caso da China. E sim, isso é muito próximo do comunismo.

Não adianta citar Cuba ou URSS. Nesses lugares houve socialismo e ditadura, que não é comunismo. O que mais se aproxima do comunismo, além da China, são as comunas mediterrâneas da Itália ou da França, onde a produção é coletiva e compartilhada, do azeite, do vinho, do pão, da passata, inclusive com o músico que não planta, não colhe, não pisa a uva, mas toca o bandolim sem o qual não ninguém consegue tocar a vida.

Saber dessas coisas, do entendimento que enfim chega a Davos, proporciona um sopro de esperança. Acalanta. Mesmo que seja utópico ou no mínimo distante, ainda que urgente. Mudar o costume é dureza. Principalmente quando se tem um ministro da Economia como Paulo Guedes, que tem horror a pobre, chama servidores de parasitas e não se vexa em xingar de feia uma senhora, professora e  casada com o presidente da França. Imagino a vergonha que nós brasileiros passamos com as conversas que PaGue teve em Davos. Ele bronzeado e o brasileiro corado. Tá puxado.

 
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