Facebook YouTube Contato

Jóias Brutas

Um amigo purista defendia o cinema raiz, e raiz, para ele, é cinema de rua, fita no rolo, atenção à fotografia, luz enfim. E sem pipoca.

Estava o meu amigo de bode com cinema em shopping com serviço de garçom, cheiro de trufa-diesel no ar, poltrona-leito etc. Aliás, ele dizia que há algumas que sacodem de acordo com o que acontece no filme. Seria a tecnologia 4D.

Pra valer mesmo ele defendia o clima de ir ao cinema, da sala de cinema, da cidade que merece ter cinema. E está certo. Assim como está certo, ou pelo menos tem meu apoio, com o bode em relação às ofertas das chamadas “experiências” hoje em dia. Uma sessão de cinema não basta? Tem que ser 4D? Vá então experimentar um na Rua Aurora. Dizem que por lá chega a 5D.

Mas o que eu queria dizer é que, se a fita é boa, boa é a fita até na TV. O Irlandês vi na TV e fico aborrecido com quem prefere comentar que assistiu em parcelas. Geração da ejaculação precoce é curiosa. Topa dez horas de congestionamento pra passar feriado na praia, outras dez de rave tecno, mas não aguenta uma história de duzentos minutos.

Outro dia o Netflix me ofereceu Joias Brutas. Ofereceu de bandeja, primeira oferta. Achei estranho porque não tinha ouvido falar. Não teve nem de longe o cartaz que O Irlandês mereceu. Mas como era com o Adam Sandler, peguei. Colosso de obra dos irmãos Safidie.

O enredo não tem nada de novo. Pelo contrário, é o clássico O Velho e o Mar ou semelhante, mas com um Santiago menos virtuoso, que pedala as contas numa loja de joias da caótica rua 46 em Nova York, não na pureza do mar cubano.

Sandler está um gigante. Gigante. Quem o vê gruda no sofá, respira curto, machuca as unhas puxando pelinha, range os dentes, fuma um maço inteiro. Em classificação de “experiência”, deveria estar na categoria 6D.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments