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Cúmplices

Dia sim, outro também, o presidente da República procura um enrosco. Com jornalistas, empresas de mídia, governadores, nações amigas, ONGs, partidos políticos – sejam adversários ou aquele pelo qual se elegeu –, Judiciário, entidades e instituições como a OAB ou órgãos oficiais, como INPE, IBAMA, FUNAI. Todo santo dia.

Imagine viver assim seu cotidiano pessoal, freguesa. Todo dia um enrosco, no condomínio, na vizinhança, na família, no trabalho, na escola, no clube, na igreja, no banco, no bar. Seria exaustivo, inviável, impossível. Com o país não é diferente, mas é pior, mais grave.

Pior porque o que a autoridade máxima do país faz afeta a todos nós. A começar pela deterioração das nossas relações pessoais. Pelo exemplo dado, a normalização da grosseria e do absurdo vai corroendo a sociedade e os prejuízos estão aí. Basta abrir uma rede social para constatar as pessoas se afogando em perdigotos.

E afeta também o governo, é claro. O ministro da Educação nem merece comentário. O da Justiça crê que escrever “não entre em facções” nos presídios pode ajudar a resolver o problema, tanto quanto a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos crê que pedir para os jovens esperarem para fazer sexo pode ser efetivo.

O ministro da Economia, se contrariado, profere grosserias, degenera suas relações políticas e atola reformas, então pede uma, duas três, mil desculpas. E reincide. E ameaça deixar o cargo. Mas não deixa.

O autoproclamado vice-ministro da Agricultura, baluarte do baixo clero pecuarista, evoca lei da mordaça contra servidora em audiência pública.

A pergunta que fica é quanto tudo isso tem entre método e improviso? Quanto tem de tática em, por exemplo, ofender a jornalista Patrícia Campos Mello para abafar as relações da família Bolsonaro com milicianos e a preocupação com os registros de comunicação do capitão Adriano, e quanto é só o que ele sempre foi?

Ser um deputado insignificante e propor fuzilamento do presidente da República, negar a ditadura, defender tortura, zombar de filhos de desaparecidos na  para conseguir ser entrevistado pelo Jô Soares é uma coisa. Ser o próprio presidente da República e continuar assim é outra bem diferente.

Tenho pra mim, e não é de hoje, que, sabendo que seu governo não se sustenta pelo diálogo e dentro do equilíbrio de poderes, Bolsonaro busca um motivo que justifique um regime endurecido ao modelo daquele que ele adora e durou entre 1964 e 1985. Mas antes pelo que eles não falam do que pelo que falam em público.

Hoje tivemos um indicativo bastante claro. No embate entre o Legislativo e o Executivo sobre o controle orçamentário o governo não fez a lição de casa e a negociação gorou. E numa transmissão ao vivo pela internet direto do Planalto o Brasil ouviu a solução proposta pelo general Heleno: “Não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo.” E arrematou: “Foda-se!” Teria ainda sugerido a Bolsonaro que incitasse suas falanges a saírem às ruas, como já fizeram contra o STF e o Congresso.

Quem não vê a gravidade de tudo isso precisa de um tratamento urgente. E a quem vê e mesmo assim segue apoiando o governo urge admitir cumplicidade no desmonte da Democracia.

 
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