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#União

Antes das sete da manhã o dia já prometia, com a revelação de Paulo Guedes sobre a projeção do Banco Central para o impacto do coronavírus no Brasil. Sem qualquer responsabilidade ou exatidão sobre os números, o ministro disse que “na Itália a previsão era de 60% de contágio e aqui, 80%.” O governo sabia disso desde quarta-feira e só agora a informação vem a público e assim, esculhambada.

Sete da noite e nada melhora, tampouco se acalma. Em coletiva de imprensa PaGue surge autoritário como sempre e ensaia um chilique, chega a se levantar como quem ameaça não brincar mais. Então encarna o Cebolinha, desenhando os planos infalíveis que aprendeu na Chicago dos anos 1970. E sobe o tom ameaçando contingenciar orçamento básico ante a pandemia que vamos enfrentar. É de se perguntar quem é o chantagista.

E é claro que o eterno Beato Salu não desencarna. Se não for do jeito dele, o mundo acaba. Mas coitado, não está bom da cabeça. À Folha, na entrevista publicada hoje, diz que crescemos “1,7%, quase 2%”. Agora na coletiva, admitiu o pífio 1,1%. Talvez seja o caso do doutor Reale Júnior estender o pedido de sanidade mental que sugeriu ao presidente da República ao seu Posto Ipiranga.

Completamente fora da realidade, o ministro sequer falou no BPC, que o Congresso aprovou e o TCU, seu órgão auxiliar, contrapôs. Assunto do momento, um dos cernes da crise política, importante para garantir alguma dignidade a tantas pessoas com deficiência, idosos ou acometidos por invalidez, especialmente diante do que temos pela frente.

Porém admito que no geral há boas medidas, ainda que o próprio Guedes admita que insuficientes. Fora a charla. Acrescentar um milhão ao Bolsa Família é importante, mas além de não se lembrar de dizer se trata-se de pessoas ou de famílias, se esqueceu de dizer que expulsou mais de um milhão de famílias do programa, sendo regiões pobres do Nordeste as mais prejudicadas.

PaGue parecia muito preocupado com as pessoa jurídicas, e de fato deve estar. E a Caixa Econômica sinaliza que está preparada para acudi-las. Grave é o desdém do ministro pelas pessoas físicas, sem as quais as primeiras não podem existir nem teriam razão de ser.

Mais grave é ver que o descontrole é a tônica deste governo. Acima de Guedes está Bolsonaro, que não pode ver um balde que já corre para o tiro de meta. De manhã deu uma entrevista a José Luiz Datena, que ganha a vida inflamando as massas no horário nobre, mas que ao telefone com o presidente era a exata imagem do adulto na sala.

Desde ontem, nas entrevistas que deu para justificar o injustificável, só envergonhou a Presidência da República, como se dele fosse, como se institucionalidade não houvesse. Não entende ou não quer entender que o chefe de Estado e de Governo não se pertence. E por óbvio não pode assumir risco de contaminação e muito menos dar o exemplo do risco de contaminar.

A situação é muito grave. Para além do Estado e do Governo é urgente sacudir o chefe de ambos para lembrar que existe uma Nação. Imaginem o que será dos milhares de entregadores de aplicativos que estão sobrevivendo pelas cidades. Dormindo nas calçadas entre uma e outra corrida com as cabeças dentro das caixas, depois rolando entre restaurantes, supermercados e residências e circulando de mão em mão maquinas de cartão de crédito, são verdadeiros polinizadores do conoravírus. Mas sem isso, morrem de fome. Urge uma renda básica pelo menos para eles e as dezenas de milhões de desempregados, desalentados e subempregados brasileiros.

Só em São Paulo há estimados 25 mil desabrigados. Destes, sete mil são idosos. Grupo de risco, portanto. O que faremos? E quando esfriar? A Itália decidiu deixar morrer quem tem mais de oitenta anos. Qual sociedade sobrevive a uma decisão assim?

Precisamos urgentemente de união. Chefes do Legislativo e do Judiciário se reuniram hoje na sede deste último. Do Executivo, Luiz Enrique Mandetta, ministro da Saúde. O presidente da República não foi. Assim como não participou da videoconferência com sete presidentes de países vizinhos, alguns deles combinando fechamento de fronteiras enquanto o nosso chama a pandemia de histeria. Com o perdão do trocadilho, cadê o líder da União? Quem é esse líder da União que se conflagra pessoalmente com os governadores dos estados-membro?

Para encerrar: o fechamento de fronteiras é preocupação de muitos pelo risco de incentivar ultranacionalistas. Mas se é combinado, se é pelo bem comum, fronteiras fechadas antes nos unem do que nos separam. Quem sabe ao cabo dessa calamidade que enfrentaremos, e oxalá vamos enfrentar juntos, possamos continuar assim quando tudo passar.

 
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