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Pavor e papel higiênico

Não é só o papel higiênico. Os adjetivos também estão acabando. Como tratar o estado de coisas a que chegamos no Brasil?

O que aconteceu ontem em São Paulo é um absurdo. O senador major Olímpio, policial que fez carreira política ao estilo Bolsonaro, por pouco não saiu no tapa com o governador João Doria.

Ambos se estranham pelo menos desde a eleição de 2018. Na reta final do primeiro turno, quando Doria escancarou o voto BolsoDoria, traindo seu padrinho Geraldo Alckmin, Olímpio, que presidia o PSL e coordenava a campanha de Bolsonaro em São Paulo, reagiu brabo: oportunista, traidor e daí pra baixo.

De lá pra cá ensaiaram um armistício, que só durou enquanto o flerte BolsoDoria vigorou. Chegaram até a formar um casal de três com a deputada Joice Hasselmann, quando esta, doriana, tomou a presidência do diretório paulista do PSL de Eduardo Bolsonaro, o ZeroTrês.

De lá pra cá a relação entre todos eles se deteriorou. Mas curiosamente só Hasselmann e Doria foram para o microondas virtual das milícias bolsonaristas. Major Olímpio, nunca.

O major tem uma trajetória semelhante a do capitão. Militares indisciplinados, incomodavam os superiores e inflamavam as bases militares, respectivamente a da PM paulista e a do Exército.

Bolsonaro escreveu um artigo para a revista Veja e Olímpio um livro que recomendava ao cidadão reagir em caso de assalto. Quando Veja publicou o croqui do atentado a bomba que o capitão planejou contra o Exército, este foi convenientemente convidado a se retirar da arma. Por conta do livro que assina como coautor, Olímpio foi afastado mas arranjou guarida na escolta do então governador Fleury.

Mais: os dois entraram para a política após o desligamento, com apoio das baixas patentes militares. Os dois passaram por todo tipo de partido e até com o PT marcharam juntos, seja em eleições, articulações ou votações. Os dois têm por ídolo figuras marcadas pela barbaridade: Bolsonaro adora o torturador Brilhante Ustra; Olímpio foi peixe e depois sócio de Ubiratan Guimarães, lembrado pelo massacre dos 111 do Carandiru. Os dois fizeram do estardalhaço e da inflamação das bases militares um modelo político-eleitoral.

Talvez tanta afinidade explique o major ser poupado pelas milícias digitais do capitão. Talvez haja mais lama sob as solas de seus coturnos.

O que aconteceu ontem em São Paulo: na agenda oficial do governador constava visita ao Departamento de Operações Policiais Estratégicas, o DOPE, da Polícia Civil. Era para ser uma visita em companhia do diretor do departamento e do secretário de Estado da Segurança.  Convocado pelos policiais, que disseram ter sido escalados para estarem no local desde as sete da manhã, o senador arranjou um carrinho de som, armou tocaia em um portão vizinho ao que o governador usaria e, quando a comitiva chegou, partiu para cima aos berros potencializados pelo alto-falante.

Doria reagiu com seu tradicional “vai trabalhar”. Olímpio devolveu com “você não tem respeito”. Como praticamente todo mundo era segurança, deu-se um impasse e as autoridades mais altas do chão paulista quase entraram no tapa. Até que Olímpio foi retirado do prédio.

O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo tomou partido do senador em nota: “Major Olímpio, uma das vozes mais atuantes da Segurança Pública paulista, foi hostilizado e agredido por ecoar os anseios de todos os policiais civis do estado de São Paulo.”

Já o governador apelou para o coronavírus, dizendo que o momento é de zelar pela Saúde – como se visita de cortesia em “batalhão” lotado fosse algo prudente em véspera de pandemia.

O desenrolar do dia é ainda mais grave. Quinze cadeias e presídios paulistas “viraram”. A contagem oficial ainda não saiu, mas a estimativa é que das rebeliões restaram 1.356 foragidos. Para dizer o mínimo é raro, se não inédito, rebelião com número tão alto de fugitivos. Do maior levante de todos, ocorrido em 2006 em dezenas de presídios, não consta sequer um fugitivo.

A versão difundida pelo Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional de SP (Sifuspesp) é que os presos se levantaram contra as novas regras para visitas e saídas temporárias para contenção do coronavírus. Pode ser, pode não ser.

Não sendo, ficamos diante da possibilidade de que a rebelião seja também policial, ou uma reação miliciana contra o Estado, como vem acontecendo em menores proporções, porém não menos graves, em outros estados, como Espírito Santo, Bahia, São Paulo, no cotidiano do Rio de Janeiro.

O fio que liga todas elas tem nome: Jair Messias Bolsonaro, seja diretamente, através de seus filhos, aliados, correligionários ou de um ministro.

Vale lembrar que desde domingo Bolsonaro nunca se viu tão isolado institucionalmente. E que o esperto João Doria declarou-se arrependido de votar no capitão.

De qualquer maneira alguém precisa parar esse processo miliciano, que começa com a insubordinação policial. Mas quem? As Forças Armadas? Ora, quando as milícias tomam conta das cidades, nem as dos Estados Unidos resolvem – vide Vietnã, Iraque, Afeganistão.

Apavorado, sinceramente não sei mais o que fazer. E já não há papel higiênico nas prateleiras.

 
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