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Na tranca e no tranco

O coronavírus mata. Aparentemente isso vai ficando claro inclusive para os negacionistas de tudo. Vide o homem que fala do gabinete mais poderoso do mundo, Donald Trump, que num espirro correu do “não estou preocupado, relaxem, vai passar”, à admissão da “pandemia que pode durar meses” e adoção da renda básica universal para todos os americanos.

Quer dizer, além de pessoas, o cononavírus mata a mentira, a desfaçatez, enquadra a irresponsabilidade. É um horror. Não precisava ser assim. Porém, igual a tudo na vida, o bem e o mal andam de mãos dadas. É a história da humanidade.

Com as crenças e religiões foi assim, da empatia às mais diversas cruzadas, passando pelo controle social. Com a ciência foi assim, desde a pólvora até a internet, passando pela tecnologia nuclear. Com a biologia diferente não seria. Tampouco com a economia.

O mundo está apavorado com o coronavírus, que espalha dor, sofrimento e morte pelo mundo. E também nos presenteia com imagens emocionantes de reconhecimento e solidariedade. Entre um meme e uma notícia, vamos do pranto às gargalhadas.

Vejo amigos empresários tendo que decidir entre seguir em frente ou baixar as portas. Escolha de Sofia. Pode parecer óbvia a decisão entre o desemprego e a vida. Mas e quando o primeiro também significa a morte? Soltamos as mãos uns dos outros ou assumimos o risco juntos? Eu não queria estar na pele de quem tem que decidir.

Alguns desses amigos empresários passaram os últimos tempos amaldiçoando a Política, assim mesmo, com P maiúsculo. Pois guardadas as proporções, faz parte do cotidiano dos políticos tomar decisões assim, escolher prioridades. Haverá reconhecimento a quem se doa à vida pública? (sim, canalha tem em tudo quanto é canto.)

Outros tantos, não raro os mesmos, falaram muito contra o Estado. Tinha que diminuir, tinha que acabar. E o que fazer agora que ele e só ele pode nos salvar? Ciência e tecnologia, rede de proteção e controle social, distribuição de renda, Justiça, quem mais poderia fazer? Alguns setores, exata e literalmente como quem está se afogando, desistiram da mão invisível do mercado para agarrar a mão forte do Estado. Pergunto: por que não ambas?

Entre as pessoas físicas é igual. Que fazer sobre empregados domésticos? Manter o salário sem trabalho e menor risco de contágio; peitar o risco mútuo, ainda que desigual de contaminação, continuando como antes; ou o famigerado lessefér, também conhecido como “cada cachorro que lamba a sua caceta”?

O novo coronavírus, ou vírus coroado, faz parecer que a questão é nova. Mentira! Mil vezes mentira. A gente é que fingia não enxerga-la. Ou o que é pagar um dólar para receber hambúrguer sentado no sofá? Ou aproveitar o desequilíbrio entre oferta e demanda para fazer uma viagem baratinha de carona até ali? Ou condicionar a manutenção da empregabilidade ao arrocho salarial e cortes de benefícios?

Voltando às empresas: o lucro da mineradora que segue bem cotada em bolsa, pagando bônus e dividendos gordos a executivos e acionistas, mesmo tendo um passivo enorme social e ambiental, é de verdade? Não é! É mentira!

O âncora do jornal ganha um milhão por mês. O repórter assistente, enfrentando enchente ou apanhando no curral do presidente, o equivalente a 0,05%. É verdade ou fakenews?

E mais uma vez a vida privada. Costumávamos a nos preocupar com suntuosas festas de aniversário para crianças. Hoje o que pais e avós não fariam para estarem juntos em torno de um bolinho de chocolate com uma pequena vela espetada cantando parabéns para suas crianças?

Passei a vida ouvindo de uma tia querida: o que você não aprende em casa com carinho, aprenderá no tapa fora dela. Eis que aos 41 anos me encontro em quarentena, na tranca, no tranco, aprendendo com dor e tristeza profunda lições que a rua mais agressiva seria incapaz de impor.

 

Com alguém que me lê tem sido diferente?

 
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