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Nossas fuças mascaradas

A voga na minha bolha é o elogio aos paroquianos que mantém o numerário dos empregados domésticos e demais prestadores de serviço sem a prestação do serviço. E o auge da popularidade vai para o crente que, repleto de cutículas, afirma pagar a manicure e estar caprichando na gorjeta do rappi.

Na conjuntura atual o jeito é engrossar o coro na esperança de que a moda pegue. Pode salvar vidas. Mas eu não consigo deixar de pensar no problema estrutural, que é em pleno 2020 haver na sociedade gente que, mesmo empregada, não sobreviveria a três meses sem receita.

Isto é, o problema agora é o novo coronavírus e toda ajuda para combate-lo será bem-vinda. Mas a existência de um estrato social submetido a considerar luxo algo básico para a sobrevivência como a quarentena ante uma pandemia é de amargar. Pior: a convivência com tal situação está normalizada.

Desenhando, o salário dos empregados domésticos é um escárnio. Tais empregos só existem graças à miséria. São filhos da miséria. Não raro, aqui na catedral do privilégio uma família consome em um mês de supermercado o equivalente aos treze meses de salario de uma doméstica. E ai dela se pedir aumento ou aceitar trabalhar no vizinho por um pouco a mais.

Me lembro de 2015 como se fosse agora. O debate nacional era a PEC das Domésticas. No meu entorno, sempre que o assunto entrava, o ar saía, dada a solidez da indignação com a sugestão de estender aos empregados domésticos os direitos trabalhistas então garantidos a todos. Não por acaso, veio uma reforma bárbara com a mudança de governo. E logo em seguida o país elegeu presidente da República o único deputado federal que votou contra a PEC.

Da classe média tradicional ou recém nascida para cima, perdoou-se tudo do PT. Lula foi reeleito depois do Mensalão. Dilma, eleita e reeleita com Petrolão diariamente nas manchetes. Claro, o consumo grassava, havia picanha, cruzeiro, TV de plasma. Mas a PEC das Domésticas foi demais. “Peraí! Uma festa danada!” O complexo de sinhazinha não suportou.

De novo, sem novidade. O Império caiu quando, depois de quarenta anos de passos lentos, finalmente o Brasil tomou vergonha e fez a abolição. Com João Goulart foi igual. Imagina estender direitos trabalhistas ao peão do campo? Coisa mais sem cabimento. Coisa de comunista. E a marcha da família com deus pela liberdade derrubou Jango, entregando o país a uma ditadura militar. Qual família, deus de quem e o significado de liberdade continuam sendo questões marginais.

Nos acostumamos a isso. Talvez sejamos assim. Há um desprezo profundo do 5% que detém 95% da renda nacional pelo andar de baixo. Todas as atenções neste estrato são voltadas ao 0,1% que possuem 48% da riqueza brasileira. Receio que só vivem no Brasil para poder tomar café da manhã na cama e não terem que limpar a própria privada. E seguem assim, de joelhos esfolados, 99,9% da Nação, metade na esperança de receber convites para um garden party, metade por quaisquer migalhas, ora traduzidas no salário de fome mantido para que a doméstica não traga ao lar o coronavírus contraído no trem lotado.

É emblemático que o primeiro óbito no Brasil tenha sido o da doméstica de 63 anos, diabética e hipertensa, que continuou servindo a patroa que chegou da Itália, testou positivo e se deitou provavelmente em plumas de ganso.

Essa mulher vai puxar o grande féretro nacional que passará sob as nossas fuças mascaradas. Se alguém chorar, que pelo menos tenha a decência de evitar a selfie para as redes sociais.

 
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