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Mate as saudades de você

Há quanto tempo você não sente saudades, freguesa? Não saudades de alguém querido, um momento, comida, um lugar. Saudades de você. De quem você é. Ou de quem quis ser antes de sucumbir aos padrões inventados sabe-se lá por quem.

Na tranca, me desespero com o futuro imediato no Brasil. Receio que será tétrico, pior do que tem sido alhures. Nosso pacote nacional de enfrentamento à pandemia é o mais tímido do mundo, mesmo considerando que todas as medidas anunciadas serão realizadas.

Mas para além da devastação estou otimista. E é justamente por sentir que as saudades de nós mesmos afloram na intimidade forçada com nós mesmos.

Insisto: noves fora velocidade e potência, o novo coronavírus nada traz de novo. Desde sempre os pobres, as minorias, os mais vulneráveis pagam as contas da humanidade. Pobreza é o que há de mais caro. A novidade é que talvez agora, obrigados a estacionar, a gente pare para pensar sobre o que fizemos das nossas vidas.

Quando foi que nos rendemos ao individualismo, ao egoísmo dos últimos tempos? Meu palpite é que por conveniência social fomos nos entregando, e a cada passo nos distanciando de nós mesmos, do que queríamos, desejávamos, sonhávamos.

Igual a tudo na vida, o combinado geral tem seu lado bom. Receio porém que tenhamos exagerado na dose. O remédio virou veneno.

Em algum momento cruzamos a fronteira do contrato coletivo e partimos para o salve-se quem puder. Simulando urbanidade, adotamos um instinto de horda selvagem e primitivo, abandonando a individualidade e caindo na vala comum do individualismo.

Como pode alguém que sufoca as próprias vontades reconhecer as vontades alheias? Como pode alguém que não se conhece, e portanto não se gosta, carece de amor próprio, ter amor pelo próximo?

Como nos deixamos nos humilhar tanto por sobrevivência financeira e social, ou econômica? A lógica do humilhado é a do dia da caça e do caçador: aceito hoje porque minha vez há de chegar. Medo e vingança. Não podemos ser feitos destes sentimentos.

Agora, em quarentena, a solidariedade nos impõe a viver com o básico – proporções guardadas. Quem ganhar numa loteria cuja fé foi depositada há semanas fará o que do prêmio dentro de casa? No máximo, planos, sonhos. Ou filantropia. Mas para planejar e sonhar ninguém precisa acertar o milhar.

E minha aposta num futuro  melhor vem desses sonhos íntimos. Se nos descobrirmos, nos reconhecermos, se matarmos as saudades de quem um dia sonhamos ser, com efeito poderemos entender, reconhecer e conhecer melhor os demais.

Tarde da noite desço para o térreo do meu prédio. Através das grades olho a rua. Quantas saudades. Vou ao pátio, respiro o ar fresco e inacreditavelmente leve da São Paulo da quarentena. É um deleite. E é de graça. Ou antes: de graça não é, vai custar caro, já está custando.

A pergunta é: qual conta vamos preferir pagar depois que tudo isso passar? A dos últimos cem, duzentos anos, ou a dos séculos por vir? A resposta está dentro de cada um de nós. Mate as saudades de você.

 
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