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Seu destino é o bar

Tenho pensado no Washington Olivetto depois do sequestro. Já em casa, depois de um trauma violentíssimo que absolutamente ninguém deveria sentir na pele, ele tem dois pedidos: coxinha do Frangó e cheeseburger da Forneria.

Pediu para comer em casa, porque provavelmente também sentia saudades dos seus, da sua gente, das suas coisas, do seu canto.

Penso no cavaleiro Washington porque também estou confinado, igual a todo mundo que pode e tem o mínimo de noção de sociedade. Posso pedir em casa uma comida saudosa? Posso. Mas não peço. Não é o que me faz falta. O que me faz falta é sair de casa e ver minha cidade.

Quero flanar pelas calçadas. Ir ao parque. Abrigar corpo e espírito numa delícia de museu ou galeria. Esse dia há de chegar. Mais cedo ou mais tarde há de chegar. E quando for, da minha parte será carnaval.

E como em todo carnaval diligente, a primeira parada será num botequim, onde um garçom querido nos espera com as varizes e o sorriso rasgados. Ah, não tem sorriso? Não importa. Meu coração ama inclusive e, não raro, principalmente, os garçons mal humorados. Ama a restauração toda.

Ocorre que, com todo mundo guardado pela quarentena imperiosa, a ampla maioria dos bares e restaurantes estão fechados. Fecho com eles.

Porém, a depender do tempo que durarem as portas fechadas, é quase certo que não encontraremos porta aberta no dia em que portas as das nossas casas finalmente se abrirem. Parece um cenário absurdo, eu sei. Mas quem duvida que o absurdo acontece não está em 2020.

Entendo que pode parecer egoísmo, com tanta dor e sofrimento nas notícias de perto e de longe, ficar aqui pensando aonde vou comer e beber quando puder ir. E pode até parecer otimismo, afinal quem tem garantia de que estará lá no dia?

Mas para quem está preocupado com as pessoas, este é o número: seis milhões de empregos estão ameaçados pela quebradeira que o coronavírus pode impor à categoria. Na escalada padrão, incluindo as famílias, são aproximadamente vinte milhões de pessoas afetadas. Ou dez por cento de toda a população.

Agora, se a preocupação é com a economia, ou meramente financeira, a conta servida fria fica até mais fácil. Ninguém precisa ser especialista para saber o que significa 10% da população, pessoas economicamente ativas, expulsas do mercado de consumo.

Num jogo de palavras, resta saber o que queremos fazer da restauração. Nas cidades, nas estradas, nas praias, no sertão. Se dentro na normalidade todos pagamos para ter calçadas, parques, praças, museus, por que não deveríamos pagar para proteger, na excepcionalidade, nossos bares e restaurantes?

Em tempos recentes pagamos para salvar montadoras, companhias aéreas, bancos. Não uma, mas várias vezes. Com uma diferença fundamental sempre lembrada pelo embaixador da Johnnie Walker: a Escócia tem mais patrimônio em uísque do que a Inglaterra tem em ouro – sendo que uísque a gente bebe.

Escolhemos viver juntos, em cidades, entre outras coisas porque nelas temos um bar ali na esquina. Agora estamos fisicamente separados, confinados, mas juntos em sentimento. Quando a pandemia passar, vamos querer nos encontrar. E o nosso destino é o bar. Vamos salvar os nosso bares!

 
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