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20h30 é o horário do Jornal Nacional, não de panelaço

O panelaço foi importado da Argentina. Sim, hermanos, da Argentina. E por aqui foi adaptado. Como alguém bem definiu, diante da Casa Rosada o rufar da bateria significa “temos hambre”; nas janelas brasileiras, “não quero ouvir”.

Às 20h30 do 31 de março de 2020, 15º dia consecutivo de panelaços da classe média contra Bolsonaro, tivemos o maior de todos. É justo. Naquela manhã o presidente dizia ao curral diante do Alvorada que a data marca o “dia da liberdade”, em referência ao golpe de 1964, que instalou a ditadura militar, falseava a mensagem do diretor-presidente da Organização Mundial da Saúde, destratava repórteres presentes. Ora, com o perdão do sacrilégio, é melhor provocar auto-surdez do que ouvir coisa parecida.

Cá da quarentena maltratei o aço, enquanto acompanhava pelas legendas o pronunciamento do presidente em cadeia nacional. Ah, aprendi que é mais eficiente bater na tampa da panela do que na própria panela. É mais leve e barulhento. Porém, a princípio, não repetirei o ato e exponho meus motivos.

Primeiro, fazer barulho ajuda a extravasar. Entendo. Ficar na janela, areja a quarentena. Também entendo. Mas todo dia vai acabar incomodando e cevando o ódio do gado que resta. Noto pela minha paróquia. É começar o panelaço para meia-dúzia de garrotes saírem às janelas para xingar os músicos e defender o mito.

Ora, eles precisam de um atalho para escape. Encurralado, o espírito humano tende à teimosia. Sendo reaça, tanto pior. Deixemos estar. A suavidade civil agora é boa aliada.

Segundo, o Jornal Nacional e demais noticiosos da TV Globo vêm fazendo um trabalho impecável na cobertura da pandemia e dos movimentos dos governantes. Nasceu histórica a edição do Jornal da Globo do 26 de março, com Renata Lo Prete desmentindo, ponto a ponto, cada mentira contada por Jair Bolsonaro logo após seu pronunciamento. No dia 27, os demais jornais da casa reprisaram o conteúdo do “desenho” com as respectivas formas.

Quando Luiz Henrique Mandetta disse que a imprensa é sórdida, Ana Paula Araújo respondeu com altivez no Jornal Nacional, levando o ministro a se desculpar com grandeza.

Sendo a maior audiência a do Jornal Nacional, que começa justamente às 20h30, me parece mais eficiente que o gado esteja diante da TV do que nas janelas gritando “vai pra Cuba, vai pra Venezuela, petista vagabundo etc.”.

Craque que só, Lo Prete encontrou o veio para combater a desinformação que elegeu e suporta o bolsonarismo: explicar didática e minuciosamente cada sandice proferida pelo presidente. Os efeitos são perceptíveis.

O pronunciamento de ontem foi bem recebido pela imprensa e alguns formadores de opinião. Lamentável. Parece que não aprendemos nada. Dizer e desdizer é o método da comunicação bolsonarista. Os que o seguem pelas redes não conseguem se entender com quem lê ou assiste jornal justamente por isso. E a cizânia cresce, o que não interessa a ninguém.

 

 
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