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Medidas de isolamento de Bolsonaro

É inexato dizer que Bolsonaro trabalha contra o isolamento. Temos que adjetivar isolamento para ficar exato. Sim, ele trabalha contra o isolamento social no plano doméstico, nacional, atacando governadores, prefeitos, juízes e outras autoridades sistematicamente. Já no plano internacional, diplomático, trabalha firme pelo isolamento do Brasil.
O presidente da Mercedes-Benz para a América Latina disse que o Brasil perdeu em poucos meses a credibilidade que conquistou, segundo ele, com as reformas trabalhista e previdenciária. Que sua indústria aguarda a liberação da Anvisa para ajudar produzindo respiradores, mas a falta de coordenação e burocracia atrasam o processo e colaboram para a pandemia.
Na América Latina somos vistos como párias por nossos vizinhos. Os paraguaios não podem ouvir falar em brasileiros. Somos responsáveis por 90% dos casos de contaminação por lá. Argentinos têm medo de contato com a gente, assim como todos os demais. Não é de hoje, o governo atual vem arranjando enrosco no continente desde antes da posse, com Paulo Guedes, ChanCelerado e o próprio presidente, que já conseguiu arrancar nota de repúdio até do seu colega chileno pelas declarações que fez contra Michele Bachelet.
O Fundo Soberano da Noruega excluiu de sua carteira qualquer possibilidade de investimentos em duas gigantes nacionais, Vale do Rio Doce e Eletrobras, por desrespeito ao meio ambiente. E olha que eles ainda caçam baleias.
Os países que começam a se abrir no pós quarentena estudam medidas para turismo e abertura de fronteiras. Todos eles, porém, adiantam que trabalham focados na necessidade de medidas de contenção, desde atestado de não contaminação ou imunidade até quarentena remunerada para visitantes. A principal preocupação, porém, é com turistas vindos de países onde a pandemia está descontrolada. Dentro deste quadro, nenhum país vai querer receber brasileiros.
No mercado de capitais, investidores internacionais fogem do Brasil há meses. Quando parecia que já tinha ido todo mundo embora, um ou outro desavidado que continuava por aqui se mandou na pandemia. Tem a ver com a taxa de juros? Também. Porém, mundo afora o que há são taxas ainda menores e até negativas. Logo, o que os espanta é a condução do governo atual.
Tampouco os Estados Unidos nos veem com bons olhos. Ninguém gosta de bajulação. Nem Trump, que por sinal já conversou com o governador da Florida e o prefeito de Miami, publicamente, considerando proibir a aterrissagem de voos vindos daqui por lá.
Não entramos no grupo de países que se juntaram para desenvolver uma vacina contra o novo coronavírus. Ficamos à sombra dos Estados Unidos, que também não entraram e também atacam a OMS. Quando tiverem a vacina, estaremos no fim da fila.
A farmacêutica Gilead, dos Estados Unidos, publicou uma lista com 127 países, em maioria pobres, em desenvolvimento ou com problemas de acesso à saúde, para receberem o Remdesivir, medicamento aprovado pela Anvisa de lá, o FDA, para tratamento da Covid-19. Aqui nem é caso de fim de fila – o Brasil sequer está na lista.
Será necessário falar da China? Claro. Os ataques ao gigante asiático são frequentes no entorno do presidente, de ministros à prole. A diplomacia chinesa reage indignada e nada acontece. Digo, sequer tentamos reparar ou minimizar os danos. Mas comercialmente acontece que somos preteridos na compra de insumos hospitalares pelo nosso parceiro principal, que compra o que ainda produzimos, comida, motor da nossa economia há anos e que continua funcionando na pandemia.
Entre a comunidade científica internacional, obviamente o cenário não é diferente. A revista inglesa The Lancet, uma das mais prestigiadas da área, publicou um editorial grave afirmando que Bolsonaro trai o povo brasileiro e é a maior ameaça no combate ao coronavírus.
O jornal estadunidense Washington Post foi na mesma linha, mas condenando as declarações de Bolsonaro sobre a OMS, que segundo ele incentiva a masturbação e a homossexualidade entre crianças, e ressaltou sua despudorada e contínua campanha de notícias falsas, tendo post removido por uma rede social. E ainda destacou como a Presidência arranja briga com entes federativos e até auxiliares, incluindo dois ministros da Saúde em plena pandemia.
Enfim, parece que conseguimos. Elegemos um marginal. É ele quem nos representa e isso é apavorante. Quantos Bolsonaros, Guedes e Damares há entre nós, em nossas famílias e círculos sociais? É terrível imaginar. Um em cada cinco brasileiros acha ele bom ou ótimo. É muita gente. E, agora, sequer podemos fugir dessa gente. Não há para onde correr. Somos parias mundiais. Brasileiros, marginais.
 
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