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Miudinho

Ouço muito na voz do príncipe Paulinho, mas talvez seja do craque Martinho, ou ainda, qual a Teresa da Praia, não é de ninguém o partido alto Miudinho – ô devagar miudinho, devagarinho…

É o que tem embalado minha quarentena. Vou, finalmente, aprendendo a fazer as coisas com calma. Tirado o rancão inaugural, quando suava na faxina da casa toda de uma vez, nos outros dias suava com os exercícios atrasados desde muito, tentava fazer andar a fila da leitura que se acumulava na cabeceira, tomava todo sol possível no dia, cumpria quaresma severa ou, finda esta, me entregava a bebedeiras profundas, e muito, muito cigarro, redes sociais, TV, os excessos foram amainando e a moderação vai se tornando o costume.

Começou quando resolvi cortar o cabelo. Acho que foi, apesar de tudo, uma sensação de falta do que fazer. Cabelo ondulado tem a vantagem de entregar a ponta que pode ser podada. Meti a tesoura. Gostei. Não porque precisasse, nunca dei muita bola e menos ainda em quarentena. Mas pareceu terapêutico. E como não é todo dia que tem ponta se entregando, levei um três dias cortando. Semanas depois, repeti a dose ao longo de mais três ou quatro dias.

Influenciou a faxina. Pra que fazer a casa toda no mesmo dia? Exaure e, claro, os últimos cômodos acabam não merecendo a atenção dos primeiros. A coisa evoluiu a ponto de dividir os próprios cômodos em parte. Cozinha, por exemplo. Um dia é uma bancada, outro a geladeira, num terceiro o fogão, depois dele a pia, o piso e por aí vai. Miudinho.

Com ginástica é mais fácil. Sempre um prazer adia-la. Devagarinho. Tem dia que vale só se espreguiçar longamente. Com sol também. Ajuda em várias frentes, inclusive o humor. Mas não precisa ser todo dia, como ele mesmo sugere, se escondendo de vez em quando atrás das nuvens.

Orgulhoso mesmo estou do controle etílico. Pela primeira vez na vida passei a seguir a linha do final de semana. Sempre preferi beber desde segunda-feira, quando só tem profissional na rua, e deixar os finais de semana para os zé festinha. Agora, porém, alguma rotina parece interessante e vou esperando as vontades clarearem até quinta ou sexta, quando descubro quem mais quero rever.

Os gostos seguem parecidos. Com gin, vinho e cerveja estou civilizadíssimo. Sábado e domingo pela manhã fiquei em três gin-tônicas respectivamente. Um lorde. Vinho, idem. Começo pouco antes da refeição e encerro logo depois para a sesta. O fim da garrafa vai durante um zoom ou tevê no fim da tarde. Ah, a cobertura jornalística, que vem sendo primorosa especialmente na TV Globo e me absorveu na largada, também já está controlada. No Netflix maratonei Fauda na largada e agora nada me anima pra valer.

O diabo continua sendo a paixão. Uísque, quando diz alô, demora a se despedir. É aquilo que o Tom Jobim definiu tão bem: a primeira cerveja é uma delícia, a última, uma merda; o primeiro uísque é uma merda, o último, uma delícia. E haja últimos.

 

 

 
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