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Caprichar na despedida

Para mim é imperioso reconhecer que, entre tentativas, erros e acertos, no limite, Bruno Covas e João Doria merecem nota acima da media no combate à pandemia. Especialmente o Bruno, na linha de frente ainda convalescendo de um câncer brabo.

Os hospitais de campanha municipais e estaduais são um exemplo. Estão funcionando, salvando vidas, ao mesmo tempo que a rede privada reclama o vazio em suas dependências. Um doutor chegou a dizer à CNN que a abertura era necessária porque, isoladas, as pessoas não sofrem acidentes e, nessa toada, hospitais particulares quebrariam.

É curioso que o exitoso Corujão da Saúde, raro ponto positivo da passagem relâmpago de Doria pela prefeitura, quando soube aliar a sugestão do ex-governador Marcio França a seus contatos profissionais, tenha sido preterida, notadamente no cenário atual.

Desconto também para as macaquices politiqueiras da exaltação do maior isolamento do país, destacando números absolutos e não proporcionais no estado mais populoso da federação. Se comparados à Argentina, com população equivalente à paulista, fracassamos fragorosamente.

Fracassamos como sociedade. Nas periferias, a dificuldade de isolamento se impôs previsivelmente. E, no centro expandido, onde poderia ser cumprido com conforto e alcançar os desejados 80%, o fracasso foi retumbante.

Tristeza enorme constatar nosso caráter. Os fura-quarentena lavando a consciência e apelando por abertura com o dedo apontado para a periferia desesperada. Insistindo que a depressão econômica seria mais danosa que a doença. Prova inconteste da indiferença histórica e negação da realidade.

“Ah, como pedir isolamento se as pessoas moram amontoadas, em casas mal arejadas e sem insolação, e não têm dinheiro para sobreviver um mês parados?” Como se novidade fosse.

“Ah, mas e a saúde mental das pessoas trancadas em casa?” Como se novidade fosse. No centro, tédio, depressão, frustração, paranoia – e tome placa dental para não estourar os dentes durante o sono químico, e mais bolas para se levantar quando o efeito passa. Na periferia, sorrisos falhos por falta de dentista e sono desmaiado pela exaustão de horas diárias no transporte público, espaçadas pelas jornadas de trabalho suado.

Aos três meses de cana domiciliar, penso também no sistema prisional. Tanta gente punitivista que dizia ser moleza tais condenações, defendendo mais presídios para passador de maconha, ladrão de galinha e que tais, todos pretos e pobres. Duvido que tenham mudado, mesmo que tenham guardado isolamento. Se nem cana confortável regenera, é fácil concluir o que estamos criando com o sistema vigente.

Também penso se valeu a pena ficar em cana. Não sou de ferro. Passei por incontáveis estados emocionais nesses três meses. Tento ser otimista, mas fracasso, derrotado pelas evidências.

Me esforço para reconhecer o trabalho do governo do estado. Mas quem aguenta, quando depois do dia noventa vem a tal “quarentena inteligente”? Tão “inteligente” que ninguém entendeu.

A quarentena na capital paulista será afrouxada. Grande SP, com todas suas zonas cinzentas, não. Seremos, por óbvio, um manancial de propagação do vírus.

Shoppings reabrirão nas zonas laranjas, que inclui capital e a região do Vale do Paraíba. Doria tem um shopping de inverno em Campos do Jordão, onde a classe média vai passear exatamente como fez pelo interior e litoral nos feriados. Prefeitos do CODIVAP, preparem-se para o impacto.

Só mais um exemplo, porque não quero cansar a freguesia já esgotada de tudo. Shoppings sim, bares e restaurantes, não. Mas e o tal takeaway que sempre foi permitido? As praças de alimentação vão querer abrir e entregar comida no balcão diante das centenas de mesas e cadeiras. Pobres dos seguranças que terão que espantar a clientela.

Fico por aqui, louco pra sair e ver minha cidade, os ipês-rosa-de-bola em flor, conferir se são maritacas ou periquitos os passarinhos que ora cantam aqui perto da Paulista, rever as pessoas que eu venero, matar a saudade do meu lar, o botequim (obrigado, Noel).

Já que vai dar merda, pelo menos vamos caprichar na despedida.

 
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