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Vá lavar um bom tanque

“Vá lavar um bom tanque!”, disse o chofer de ônibus a uma senhora que atrapalhava o tráfego no Rio de Janeiro da metade do século passado. Lá, no século 20, era sem dúvida uma sentença machista. Hoje não é mais. Serve para ambos os sexos e, se não serve, errado está quem não cuida das próprias coisas.

Não é de hoje que cozinho diariamente. Mas como eu gosto, não me incomodo em nada. Também não estreei na faxina durante a quarentena, mas admito que nesse ritmo nunca tinha experimentado. E tanto que aprendi que não sujar é tão importante quanto limpar. Pela primeira vez na vida estou usando prato para comer sanduiche.

Cama não arrumo. Prefiro desarrumada. Primeiro porque acho que tem que respirar durante o dia. Depois porque quando dá na telha ir deitar ela já está lá preparada, bastando puxar a coberta. E não, não entendo, não entendo, nunca entenderei essas pessoas que enchem a cama de almofadas. Trambolho. Sequer já espaço para guardar aquela bagulhada. E, cansado, o pobre ainda tem que ficar dando conta dela. Muito estranho.

Mas o que eu queria dizer é do caráter restaurador da faxina. Não o físico, óbvio, que regenera as coisas materiais. Falo da sensação boa do dever cumprido que a faina proporciona. Manja aquela coisa de limpar as gavetas, se libertar dos excessos. É por aí e vai além.

O esforço em limpar a casa é bom para o moral. Cura ressaca, tanto pelo circulação do sangue ou pelo bem-estar da realização de algo realmente importante. Bom para o moral e para a moral também. Ah de quem vem me amolar durante ou após uma faxina. Pode ser o papa telefonando que não atendo. Tenho mais o que fazer.

Claro que tudo isso tem a ver com ter nascido católico, de classe-média e coxinha. Tendemos  a considerar o trabalho um feito. Uma proeza. Acreditamos que o trabalho enobrece – como se os nobres trabalhassem.

O problema é que o trabalho acabou. Noves fora aquela primeira profissão, todas as demais poderão ser substituídas pelas novas tecnologias. Mais da metade já é, mas a turma segue trabalhando por necessidade ou vício. Nas repartições públicas e no shopping Iguatemi ainda há ascensoristas. Nossos ônibus têm cobradores.

A raiz cultura disso tudo, creio, é a culpa católica. Coisa do meu xará operário, o São José. Tão bonito o ofício de carpinteiro. Mas e agora, com as impressoras 3D? E agora, José? Arranjamos um problema enorme. Se José não sai de casa para ir à oficina, a que horas o Espírito Santo pode visitar Maria para conceber o Nazareno, nosso salvador?

O Domenico de Masi não disse, mas já estava preocupado com isso. Propunha a diminuição da carga horaria, por força de lei, para ir acostumando a turma a não trabalhar. Sabia que, do ponto de vista do que entendemos por produtivo, em pouco tempo seríamos inúteis. Então veio o novo coronavírus e mandou parar. Parou. Tem muita gente fazendo zoom para disfarçar. Mas a verdade é que somos inúteis. Só lavar um bom tanque nos redime.

Mais curioso: trabalhamos de graça sem nos darmos conta. Sabe aquela coisa de provar que você não é um robô, freguesa? Passamos anos reconhecendo garranchos. Sabe pra que? Para alfabetizar robôs. Trabalho bem feito, hoje eles digitalizaram todas as maiores bibliotecas do mundo, a jurispridência legal internacional, os arquivos centenários dos maiores e mais antigos jornais.

Agora reconhecemos coisas do tráfego. Faixas de pedestres, semáforos, automóveis. É tudo para habilitar carros autônomos. E o processo está bastante adiantado.

Mas o problema não é exclusivamente social. Tem o lado mais amplo, econômico. Nossa cultura atrela trabalho à renda. Mesmo com a gente trabalhando de graça para fazer meia dúzia de bilionários no Vale do Silício. Mesmo com mais da metade da população trabalhando de sem ganhar tostão desde que o mundo é mundo. Tivemos escravos, sim. Tentamos acabar com isso mas ainda há quem resista. Porém principalmente ainda toleramos que as mulheres trabalhem, muitas vezes em jornadas duplas, sem ganhar nenhum por cuidar das crianças, dos velhos e das casas.

É importante investir em desenvolvimento tecnológico para a vida melhorar. Mas junto com essa melhora, igual a tudo na vida, vem a degradação de outras frentes. A concentração de capital fica inevitável. A precarização do trabalho grassa. E como poderemos manter a economia girando se cada vez mais pessoas são expulsas da atividade econômica.

Só a renda básica pode nos salvar. E nos salvar, enquanto sociedade, depende de salvar a economia e, antes, o meio ambiente. Quem tiver outra solução, por favor apresente.

E, se for muito difícil para o cristão ganhar sem trabalhar, vá lavar um bom tanque que passa. Garanto.

 
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