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Protocolo Moura Coutinho

Acabei de almoçar um bife com uma polegada de altura. Também teve arroz Biro-biro e salada com agrião. Agora estou no segundo uísque. Posso reclamar da quarentena? Em tais condições não devo. Mas posso.

A Marta Rocha pode reclamar do vice-campeonato mundial de beleza? Não deve. Mas pode. Claro que pode. Maldita polegada. Ou bendita, quem poderá afirmar?

Perto dos cem dias de quarentena, não aguento mais. Podia ter sido pior pessoalmente? Claro. Mas também podia ter sido melhor. E alguém tem que falar disso.

Esses cretinos que elegemos, sobretudo em 2018, falam abobrinha à vontade. Bolsonaro é o campeão mundial. Não tem polegada que lhe tire o campeonato. Rolou um meme onde o Trump o chamava de Juan Messias. Piada verdadeira. Dá até saudades de quando para o resto do mundo o Brasil não existia, nossa capital era Buenos Aires. Agora, graças ao Jair, somos famosos e bem conhecidos. O pior povo do mundo.

João Doria e colegas governadores nnao ficam atrás. Mais atrapalham do que ajudam. Ninguém sabe o que é pra fazer. Publicam números trocados, com lógicas trocadas. A mais recente é que mesmo com shoppings abertos o isolamento está mantido em 48%. Ridículos, quase inúteis 48%.

A atenção deveria ser para onde os 52% estão se encontrando. De um lado, pobres coitados condenados ao transporte público e trabalho chamado essencial. Do outro lado o velho champanhe da inconsciência descrito há décadas pelo nosso Rubem Braga.

Gente que vai ao Iguatemi passear. Passear em shopping, minha filha? Puta que o pariu! Tenho uma tia que tem loja lá. Estava naturalmente preocupada. É seu ganha-pão. Mas daí perguntam: está vendendo? E ela: na loja, não; as pessoas vêm, olham, e pedem pelo telefone, daí mandamos pelo Rappi.

E o pior de tudo é ver que os governantes, por nós escolhidos, por nós que somos esta Nação marginal, fracassada, infeliz, ingrata de um dos melhores territórios que a Natureza foi capaz de criar, esse governantes, que são nosso espelho, sequer falam de pessoas.

Falam de números de mortos. Falam de leitos de UTI. Tudo em números. Nada de pessoas. O governo federal até dos números não quer mais falar. Só fala por ordem judicial.

Mas falam de CNPJs. Querem salvar empresas. Como se empresas existissem sem gente. Como se tivessem razão de existir sem gente. É a vitória política da Faria Lima. O tal mercado, que ninguém sabe direito o que é ou pra que serve, vigorando em sua lógica fantasiosa.

Eu achava graça nos outros países se preocupando com o indivíduo. O governo da Holanda chegou a publicar manuais de masturbação, sexo on-line e a dica para cada qual escolher uma costelinha para agarrar de quando em vez. A Espanha votou por ampla maioria uma renda básica universal. Alemanha também meteu dinheiro nas pequenas empresas, que no fim das contas são empresários individuais. Portugal testou geral e já está aberta. Whuan e Coreia do Sul testaram dezenas de milhões e já podem brincar. Trabalhar sempre puderam. Igual a todo mundo.

Nova York, depois do susto, e mesmo com um imbecil seu filho desgovernando o país ali num estado vizinho, tomou medidas pelas pessoas. Caminhem pelas ruas. Fizeram ruas de lazer, sem carros, igual a nossa Paulista Aberta, para a turma desanuviar. Foi fundamental para manter o isolamento.

Quer dizer: seguiram a regra básica da medicina que é feita para as pessoas, não para o “setor” ou “mercado”: prevenir é melhor do que remediar.

Mas aqui, na pior Nação do mundo, na marginalia que nos tornamos, ninguém se lembra das pessoas. Cadê a recomendação para um passeio isolado? Cadê a informação ou protocolo para uma namoradinha? Para encontrar os amigos mesmo a distância?

Como não tem, cada um faz o que quer. Mesmo quem acha que está em quarentena não está. Visitam amigos, parentes, namoram. Uma blogueira disse que começou namoro pela internet e tudo bem com ela. Fez plástica no nariz durante a quarentena, limpou os hematomas, arranjou namorado e está trepando pessoalmente.

Então cada um que se vire. Brasileiro, você que lute. Ninguém está preocupado com a sua vida, assim como você cagou um balde para os demais. 50% desta Nação acha Bolsonaro bom, ótimo ou regular. Que dizer dum índice desse.

Por isso aqui vai meu protocolo pessoal: sair para caminhar está liberado. Quem tiver namoro, exerça. Quem não tiver, arranje. Comam e bebam o melhor dentro de suas possibilidades. E se acharem bar aberto servindo chope na calçada, bebam. Liberou. Liberou tanto que se estiver aberto às sete da manhã desta segunda-feira já pode.

Vocês que lutem, brasileiros. Esta é a síntese do protocolo Moura Coutinho.

 
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