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Fico por aqui. Em casa

Desde ontem, ou antes, pensando no que fazer ante o novo protocolo paulista e paulistano, que permite a abertura dos bares, decidi que não vou. Mas não vou sob protesto.

Devoto da Democracia, sinto um pesar profundo em notar que não posso confiar no prefeito nem no governador. Tenho história pessoal com Bruno e João, mas no prefeito e no governador não posso confiar e recomendo que ninguém o faça. Reconheço que largaram bem quando o corona chegou. Mas se perderam.

Assim, sem norte e desgovernados, nos resta ouvir o que diz a ciência. E a entidade que fala por ela no momento é a OMS, cujo protocolo não recomenda abertura de bares na situação em que nos encontramos.

Se alguém sentiu falta do presidente da República nos comentários iniciais, explico: #elenão merece comentário. Cretino, mesmo calado – como passou a semana, a fim de assentar a poeira política para melhorar a situação do primogênito no Senado, que obviamente o expulsaria, entregando-o às barras da Justiça logo que solicitado fosse – consegue piorar a situação, como o fez no quatro de julho, indo brincar de caubói na embaixada dos Estados Unidos, ou vetando obrigatoriedade de uso de máscara em lugar fechado.

Com toda sinceridade, acho que dá para ir até a esquina, a pé, tomar uma meia cerveja na calçada, passando álcool no gargalo antes de tragar, com segurança. Acho mais: que faria muito bem a todos os confinados de mais de cem dias.

Inclusive fui aconselhado a ir. Um amigo sensato, quarentenado numa fazenda com os filhos, disse: alguém tem que ir para mostrar que dá para fazer com urbanidade. Concordo. Alguém tem que ir e dar uma resposta aos infelizes que foram matar e morrer no Leblon. Não vou. Mas se souber de alguém que foi e fez direito, cumprimentarei.

E aproveito para dizer duas coisas, em apelo a todos que reportam as notícias e opinam: nem todos que estão em bares, legal ou ilegalmente, estão festejando ou desprezando as dezenas de milhares de mortes. Todos temos mortos por velar, e é da cultura de muitos dos nossos fazê-lo em mesa de bar. Beber o morto. Derramar um gole “ pro santo” e lembrar das coisas boas. Então não misturemos zé festinha com quem emergir da quarentena e for até a esquina tomar fôlego.

Outra: parem de tratar por boêmio qualquer frequentador de bar. Noite e birita têm muito a ver com boemia, mas beber de noite não faz ninguém boêmio. Pode-ser ser boêmio e abstêmio. A boemia pode acontecer de dia. Mas disso fala melhor o Paulo Vanzolini. E eu fico por aqui. Em casa.

Tenho te visto chorando
Bebendo e se lastimando
Que não suporta essa dor
De sorrir me dá vontade
Porque falando a verdade
Que sabe você do amor?

Por um desgosto ligeiro
Desengano passageiro
Faz todo esse espalhafato
Que fará você amigo
Se a vida implicar consigo
Lhe der desgosto de fato?

Der um amor que não cansa
Sabe que é sem esperança
E a cada instante piora
Der uma dor que judia
Vinte e quatro horas por dia
Sessenta minutos por hora

Talvez então não dissesse
Que bebe pra ver se esquece
Que a madrugada o inspira
Você fazendo o que faz
Só mostra que quer cartaz
Que é um boêmio de mentira

Porque não é boemia
Trocar noite pelo dia
Beber com ar de tristeza
Ser boêmio é diferente
É viver liricamente
Padecendo com grandeza

 
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