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Horizonte

A gente que andava por aí sem olhar por onde sempre me irritou. A popularização do telefone esperto agravou nossa relação. Mas não é o único fator. Para além dele, me irritam todos os ignorantes aos demais. Incluo aflitinhos, turma da firma que vai e vem do almoço perfilada ao chefe impedindo o passeio e, mais distante, uma trinca formada pelos distraídos, os bêbados avulsos ou em grupo e as crianças mal-criadas, pela qual oscilo. Entre a simpatia e a irritação.

Distante das calçadas nesta quarentena, quando saio para o abastecimento noto que o problema persiste, só que diferente.

Esgotadas por tanta notícia e redes sociais, e sempre carregando algo, as pessoas andam com os telefones menos à vista. As patotas perfiladas ao chefe, seja pelo trabalho remoto ou pelo isolamento social, diminuíram muito.

Porém, o não olhar por onde anda permanece. Agora olham para as unhas, olham para o chão, olham para o nada, fitam o vazio.

Claro que é impressão minha e admito que brota do meu sentimento íntimo, que vem da falta de horizonte.

Me sinto sufocado por não saber como e muito menos quando vamos sair dessa. Chego a invejar os encarcerados, ou pelo menos os que tem advogado e previsão de liberdade. Já me peguei até invejando a inconsciência e até a crueldade da turma da gripezeinha, do e daí?, do deixa morrer, quer que eu faça o quê?, morre mais gente engasgada do que vai morre por covil-19. A idiotice deve ser um lugar confortável.

Pensei em desencanar e ir aos bares clandestinos e agora oficialmente abertos por várias vezes, até já preparado, de máscara e tudo, ela que esconde muito da cara, mas não esconde a vergonha.

Sair para beber é partir para a incerteza, mas uma incerteza certa, voluntária, não imposta como a pandemia. Do primeiro nevoeiro a gente sai quando quiser. Este segundo, sem saída à vista, é angustiante.

Para me segurar, arranjei um antídoto, que por alguns momentos alivia a escuridão: contra a falta de futuro, o jeito é buscar o passado, as coisas que a gente sabe como termina. Textos e filmes antigos, principalmente os que a gente sabe quase de cór, são os melhores. Retratos de outras épocas também, com a vantagem de mandar para os amigos e conferir se as memórias combinam. Sei de gente que não sai do vale a pena ver de novo no canal Viva.

É paliativo, admito. Mas garanto que funciona. Enquanto não houver horizonte, retrovisor.

 

 
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