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Obrigado, Julinho

Chegou o convite. O aniversariante faria setenta anos. Julio Cesar de Toledo Piza Filho. Boiadeiro, ex-presidente da Bolsa. Décimo andar do Edifício Conde Silvio Penteado, Av. São Luiz. RSVP. Pensei: terno e gravata escuros, camisa branca lisa e, de troça, comentei com minha senhora: salto baixo e pouca maquiagem.

Lá chegando, a impressão se desfez. Club soda e champanhe fervendo nas rochas, todos os amigos, os músicos da noite, putas, travestis, dançarinas, comida da melhor qualidade e nada de prazo, nunca. Prazo, nunca. Sorrindo, o anfitrião vibrava: Clima de puteiro! Clima de puteiro!

O sonho do Julinho era um bosque de aroeiras. Desdenhava das sequoias dos Estados Unidos, país que admirava, mas as árvores de orgulho nacional eram porosas, grossas, mas porosas, ordinárias. As nossas aroeiras, não. Delgadas, porém densas. Uma tora delas sequer boia na água. Jurava que as do cais de São Vicente eram as originais do Martim Afonso.

Julinho não viu o bosque que sonhou. Não o bosque, bosque mesmo. Mas em amizades, conseguiu e viveu. Densas. E muitas. Múltiplas.

Como era próprio dele, saiu sem se despedir. Julinho tinha essa coisa à francesa. Não importava quem estivesse à mesa, se levantava e até outro dia.

Saiu às cinco da manhã, como também lhe era próprio. Horário de acordar, sem relação com o de dormir. Sabia o barulho das kombis do Estadão e da Folha. Se demorasse, metia um robe de chambre cor de vinho, chinelos, descia e caminhava até a banca do Copan para buscar os seus. Depois de ler e tomar a posição das boiadas, cochilava. Desperto, tirava um banho e ia ao almoço no Clubinho. Esperando os amigos, (re) lia os jornais, e por vezes ralhava dizendo que eram velhos. E os garçons: não, seu Julio, o senhor deve ter lido os de hoje nesta madrugada.

Gostava de sapatos. Entre estes e botinas, tinha uns quarenta pares do Busso. Praticamente Imelda Marcus da São Luiz.

Exagerado em quase tudo. Ponchos, pares de óculos, coisas de seda. Com estas era um perigo. Sua cartilha rezava: elogiou, merece. Ai de quem elogiasse uma gravata ou echarpe sua: levava na hora.

Com comida e bebida também havia algum exagero. Coisa de espírito de criança, que ele manteve nas coisas informais. Proibido de beber pelo “médico doutor”, conseguiu uma exceção: vinho branco. Chamou o Samir Bebidas. Quando D. Elaine chega em casa, dá de cara com um muro de caixas de vinho branco. Quando entendeu o caso, explicou ao marido: Júlio, o médico disse que você PODE tomar vinho branco, não é obrigado a tanto.

Por aí passa mais uma história. Janaína Dona Onça Rueda, ainda Torres, dezoito anos, passou na casa dele para um presente vindo de Paris. Júlio abre o baú que usava para vagens e pede para ela escolher um xale. Pegou um bege. Em seguida, na galeria do Copan, viu um igual na vitrina. Pensou: eita seu Júlio, antenado…

O tampo passou e abrram o Dona Onça. Na escolha da carta de vinho deu briga. Ele queria os vinhos encontrados nos botequins e puteiros. Jana já sabia de tudo e se recusava. Ele, irredutível, achava que já tinha cedido muito abrindo mão de prato duralex e talheres de alumínio. Ela foi para o pessoal: logo você, tão viajado, conhece Paris tão bem… Paris? Nunca estive lá! Como não, e aquele xale que você trouxe para mim? Ah, te enganei.

Gostava desse esculhambo. Jana recebeu a imprensa de televisão na Onça. Queriam falar da revitalização do Centro. Ela deu uma aula, desde a infância no Bixiga, Vai-Vai, depois acompanhando a mãe nos velhos restaurantes, ela cicerone das melhores boates. Anos dourados. Por isso ecolheu o Copan. Então foram apurar com Julinho: por quê o Centro? E ele: ora, moro ali na São Luiz, e estava caro pegar taxi para beber no Itaim.

Quando fomos visitar o Bálsamo da Furna, fazenda de boi que ele bordou na terra de Paranaíba-MS, na volta passamos por Araraquara, terra natal, sede da fazenda do Morganti, que era uma cidadela, com estádio, praça, escola, hospital, igreja – onde ele foi batizado. Contava: os arquitetos foram indicados pelo Duce. Hoje é Cosan, e na portaria fria não nos deixavam passar. Ele jea tinha desistido quando chamei o Bob Coutinho, que liberou o acesso. A igreja estava em restauração, acesso restrito, mas a torre já liberada. Sugeri: vamos lá, Julinho, a escada vale a pena. E ele: fui batizado aqui no altar, vá você se quiser.

Julinho planejava as coisas. A formação do Júlio Neto era motivo de gáudio despudorado. Como está o seu inglês? Médio, Julinho, só vai mesmo depois do terceiro uísque, acho. Ah, o Julinho fala fluentemente, talvez pense em inglês, e faz o sotaque de qualquer estado.

Também planejava cantadas. A melhor de todas, compôs com genialidade. Telefonou à viúva do Horácio Penteado, seu amigo e consócio de Clubinho. Alô, Lígia Toledo? Não, Lígia Faria e Silva. Só porque não quer.

Gostava das artes. Música principalmente, mas também pintura, toda, literatura, principalmente história política, e cinema, principalmente o romântico. Era Uma Vez Na América ele adorava. Regia Enio Morricone balbuciando as notas com a mão que não estava apoiada para então emendar a cena predileta, do gordinho esperando num vão de escada a menina fornida que atendia a turma num daqueles banheiros de corredor de prédio do subúrbio. O preço era um merengue da doceria linda, para o qual a molecada batalhava cada centavos durante sete dias. E o gordinho ali, esperando a vez, fitando o merengue, fitando a porta do banheiro. Mete um dedo no creme e lambre. Pensa. Outra dedada, pensa de novo. Então decide pelo merengue e até semana que vem.

A música predileta era Boiadeiro Errante. Um dia chamou a mim e Paulinha para jantar num italiano “nuovo” da rua Amauri. Estranhei. Não era dele. Mas fui, lógico. Quando entramos, entendi. Foi ele botar a primeira botina no salão para o piano começar “ já vai bem longe aquele tempo, bem sei…” Era Willie, nosso amigo pianista querido, que esta manhã, sei lá como, conseguiu cantar em áudio para a gente no grupo Cabaré do Julinho.

A bebedeira que ele gostaria ficará para depois da pandemia. Não tem jeito. Só sobrou grupo de risco entre nós. Mas quando chegar o dia…

Vai em paz, Julinho, criança eterna. Tenho que ficar por aqui. Sei que você, repetindo Zé do Pé, achava cerveja bebida de otário. Mas abri uma agora. Não se preocupe. Quando os seus amigos puderem se abraçar e retomar a bebedeira, será uísque.

 
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